Dois pra lá, dois pra cá: como funciona essa base do forró?
Updated: Oct 13
“Dois pra lá, dois pra cá” é uma expressão muito conhecida para descrever a base lateral do forró: dois deslocamentos para um lado, depois dois para o outro.
Dentro desse movimento, há também uma pisada intermediária que aproxima os pés e transfere o peso.
Essa mesma lógica pode ser dançada com passos menores, preservando a organização rítmica mesmo quando o deslocamento lateral fica menos visível.
Essa relação costuma gerar uma pergunta nas minhas aulas: “Mas e o dois pra lá, dois pra cá?”
Muitos alunos, especialmente brasileiros, chegam com essa referência. Alguns já aprenderam o movimento com alguém; outros conhecem a frase e têm uma ideia de como o forró deveria ser dançado. Quando começamos a trabalhar uma base mais compacta, nem sempre reconhecem a relação entre aquilo que já conhecem e o que estamos fazendo.
É justamente essa relação que quero explicar aqui.

Que movimento a expressão “dois pra lá, dois pra cá” descreve?
Na versão tradicional com deslocamento lateral, você pisa para um lado, aproxima o outro pé transferindo o peso e pisa novamente na mesma direção. Depois, repete essa organização para o lado oposto.
Ao começar para a direita, a sequência de apoios é direito, esquerdo, direito. Na volta para a esquerda, ela se inverte: esquerdo, direito, esquerdo. Os “dois” se referem aos dois deslocamentos na mesma direção, com uma troca de peso intermediária entre eles.
Aproximar os pés envolve, portanto, mudar o apoio. Apenas encostar o outro pé no chão não produz a mesma sequência. O ritmo também importa: essas pisadas têm uma organização própria dentro da música.
Esse é o movimento que muitos alunos brasileiros têm em mente quando chegam à aula. Mas não é a versão que geralmente ensino como base inicial.
Onde está o “dois pra lá, dois pra cá” nas minhas aulas?
Nas minhas aulas, geralmente ensino uma base lateral que preserva a organização rítmica e a sequência de trocas de peso, sem exigir dois deslocamentos consecutivos para cada lado.
Você pode pisar para o lado e realizar as outras trocas de peso no lugar. A base continua tendo uma organização lateral, mas o corpo não precisa seguir caminhando para o lado a cada pisada.
Para quem cresceu ouvindo essa expressão ou aprendeu informalmente a versão tradicional, o deslocamento pode parecer aquilo que define a base. Ao encontrar uma versão mais compacta nas minhas aulas, ou em outras aulas de forró, nem sempre reconhece essa relação.
Minha explicação começa pelas trocas de peso. Pisar e se deslocar são ações diferentes: é possível mudar o pé de apoio sem levar o corpo mais adiante pelo salão. Na base lateral que ensino, essas mudanças de apoio continuam presentes, mesmo quando os dois deslocamentos são reduzidos a uma única pisada para o lado.
Para demonstrar isso, comparo a versão tradicional com a variação compacta, mantendo o mesmo ritmo e a mesma sequência de apoios. Assim, os alunos conseguem sentir a relação entre os movimentos, embora sua aparência seja diferente.
Utilizo muito essa base lateral compacta no forró contemporâneo que ensino, incorporando abordagens do universitário e do roots. Ela oferece uma estrutura prática que pode se adaptar ao abraço, ao espaço disponível e aos movimentos que vêm a seguir.
Por que ensino uma versão mais compacta?
Na minha experiência, essa versão facilita o começo do aprendizado. Ela exige menos espaço e ajuda o casal a organizar os pés em um abraço mais próximo.
Em uma pista cheia, passos menores também tornam mais fácil ajustar a dança ao espaço disponível. O casal pode continuar dançando confortavelmente sem repetir um deslocamento lateral amplo a cada sequência.
O dois pra lá, dois pra cá tradicional, com maior deslocamento lateral, continua sendo uma possibilidade interessante na dança. Costumo utilizá-lo como uma variação, uma brincadeira ou uma referência à história do forró, em vez de uma base repetida continuamente. Especialmente em músicas rápidas, manter esse deslocamento pode exigir bastante energia.
Por razões práticas, privilegio a versão compacta como base cotidiana e trato a forma tradicional como parte do repertório de movimentos que podemos utilizar quando combina com a música e com o momento.
Se você quer praticar essa base lateral compacta e os outros fundamentos que ensino, meu curso online para iniciantes apresenta esse trabalho passo a passo, com exercícios para desenvolver ritmo, troca de peso e coordenação.
No vídeo abaixo, demonstro três variações dessa mesma estrutura:
as trocas de peso no lugar, sem deslocamento;
a base lateral que geralmente ensino, com deslocamento apenas na terceira pisada, no tempo forte;
e o dois pra lá, dois pra cá tradicional, com dois deslocamentos para cada lado.
Observe como a sequência de apoios e o ritmo se mantêm enquanto muda a maneira de ocupar o espaço.
Da base tradicional às pistas de hoje
A relação entre a base tradicional com deslocamento e a versão compacta faz parte de um desenvolvimento mais amplo do forró. Mesmo antes do movimento do forró universitário, os dançarinos já combinavam a base lateral com variações, aberturas e outros movimentos. O universitário ampliou essas possibilidades, e o desenvolvimento posterior do roots trouxe outras abordagens para o trabalho de pés e a conexão.
Hoje, observo essa diversidade em casas de forró e em festivais como os de Itaúnas e o Rootstock, além de encontros internacionais, incluindo o Forró New York Weekend, que produzo em Nova York.
Nessas pistas, você pode encontrar poucas pessoas repetindo o dois pra lá, dois pra cá tradicional em sua forma mais reconhecível, com dois deslocamentos para cada lado. Sua influência continua presente nas variações e adaptações, junto ao repertório mais amplo que a dança incorporou ao longo do tempo.
Se você quer entender como esses desenvolvimentos aparecem no forró universitário, aprofundo essa discussão aqui:
Se você quer se aprofundar na importância dos fundamentos e entender por que trabalhar a base pode transformar sua experiência na dança, compartilho minha trajetória e algumas reflexões neste texto:
Para explorar como maneiras diferentes de dançar continuam sendo reconhecidas como forró, você pode seguir para este artigo:
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Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.







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