Forró universitário na dança: que dança é essa, afinal?
- Rafael Piccolotto de Lima

- 5 days ago
- 9 min read
Na dança, o forró universitário pode ser entendido como uma forma de organização do movimento que surge em contextos urbanos, mantendo a base do forró tradicional enquanto amplia suas possibilidades.
Em muitos casos, ele pode ser visto como uma expansão do forró pé de serra, incorporando giros, trocas de posição, deslocamentos e diferentes formas de conexão entre o casal, tanto em posições abertas quanto fechadas.

Quando alguém pergunta o que é forró universitário na dança, a tendência é imaginar que existe um estilo bem definido, com um conjunto claro de movimentos que o descrevem.
Mas, para entender melhor como isso se manifesta na prática, é útil olhar para de onde essa dança vem e o que foi sendo incorporado ao longo do tempo.
O forró universitário se desenvolve a partir do forró pé de serra, daquela estrutura mais simples, do “dois pra cá, dois pra lá”, com uma base rítmica e corporal bastante direta.
Essa base não desaparece. Ela continua sendo o ponto de partida. Ao longo do tempo, em muitos contextos, essa estrutura se ajusta em alguns aspectos e passa a conviver com outras formas de organização do movimento.
O deslocamento lateral do “dois pra cá, dois pra lá”, por exemplo, tende a ser reduzido em muitas abordagens, enquanto outras bases começam a aparecer, como variações com marcação para frente e para trás, que, em alguns casos, lembram a lógica de outras danças de salão, como a salsa, mas com uma execução e uma qualidade de movimento próprias do forró.

Ao longo dos anos ensinando e observando diferentes contextos de forró, esse processo de transformação aparece de forma bastante consistente.
Esse desenvolvimento está, em grande parte, ligado à dinâmica urbana e à entrada do forró nas escolas de dança. Aos poucos, o que era mais simples se expande em repertório, sem perder a sua base.
Se você quiser entender melhor como esse processo aconteceu em um contexto mais amplo - envolvendo também a música e o ambiente social - existe um outro artigo que aprofunda esse tema:
A base do forró universitário: simplicidade que se expande
Mesmo com todas as transformações, o forró universitário mantém uma base relativamente simples. A lógica das três pisadas com pausa continua sendo, em muitos contextos, um elemento estruturante importante, alinhando o movimento dos dançarinos à base rítmica da zabumba. É isso que ancora a dança e mantém a conexão com o forró tradicional.
A partir dessa base, a dança deixa de ser apenas repetição e passa a funcionar como estrutura para construção.
Em algumas abordagens, essa expansão vai ainda mais longe, com sequências que quebram a lógica da base tradicional, incorporando padrões com cinco, sete ou mais pisadas. Isso não substitui a base, mas amplia o vocabulário.
Giros, trocas e circularidade no forró universitário
Uma das características frequentemente associadas ao forró universitário é a incorporação de giros, principalmente em posições mais abertas, o que transforma a dinâmica da dança.
No vídeo abaixo, essas características aparecem de forma clara na prática. Observe o uso de giros combinados com momentos em posição mais fechada, a fluidez da linguagem corporal e a sensação de circularidade na dança.
A demonstração aconteceu ao final de um workshop para iniciantes na Filadélfia, no dia de Halloween, durante uma pequena tour pelos Estados Unidos ao lado da professora convidada Alice Rodrigues.
O vídeo registra esse momento - uma dança conectada, fluida e confortável, incorporando deslocamentos e ciclos de giros.
É justamente esse tipo de organização, baseada em giros, trocas e fluxo contínuo, que, em muitos contextos, passa a estruturar uma parte importante da identidade do forró universitário na dança.
Corporalidade no forró universitário: leveza, fluidez e elevação
Existe um elemento que ajuda a identificar uma tendência importante dentro do forró universitário: a corporalidade.
De maneira geral, a dança tende a se organizar com mais leveza nos braços, maior fluidez nos deslocamentos e uma sensação de elevação no corpo. A pisada costuma ser mais macia, e o movimento se desenvolve de forma contínua, com menos acentos bruscos.
A pessoa que está sendo conduzida, por exemplo, muitas vezes dança com o corpo mais elevado, frequentemente na ponta dos pés, o que cria uma qualidade de movimento mais leve e elástica.
Mas é importante entender que isso não é uma característica universal.
Dentro do próprio forró universitário, sempre existiram diferentes formas de trabalhar o corpo. O que se observa, na prática, é uma tendência - não uma regra.
Ao longo dos anos dançando e ensinando em diferentes contextos, essa variação se torna muito clara. Em festivais, especialmente fora do Brasil, onde diferentes professores e vertentes se encontram, é possível perceber como essas qualidades aparecem com intensidades bastante diferentes.
Há vertentes em que a leveza de braços é muito acentuada, com quase ausência de contrapeso e uma sensação de movimento mais solto. Em outros, o uso de contrapeso é mais presente, criando uma dinâmica diferente na condução.
Da mesma forma, algumas abordagens trabalham com um corpo mais alongado e elevado, enquanto outras mantêm uma relação mais próxima com o chão, com menos elevação e mais estabilidade.
Todas essas formas coexistem dentro do que se chama de forró universitário.
Essa diversidade não enfraquece o estilo. Pelo contrário, reforça a ideia de que ele não é uma forma única de dançar, mas um campo aberto, onde diferentes corporalidades se desenvolvem a partir de uma mesma base.
Para observar como essas diferentes qualidades de movimento aparecem na prática, o vídeo abaixo traz uma demonstração realizada durante um workshop de conexão e criatividade na dança em Nova Iorque, ao lado da professora convidada Milena Morais, antes da pandemia.
Trata-se de um contexto de aula para um grupo pequeno, o que permite uma dança mais focada na escuta, na interação e na exploração dos elementos trabalhados naquele momento.
Ao assistir, é possível perceber como muitas dessas características se articulam de forma integrada.
A alternância entre momentos em casal fechado, com um abraço confortável e entregue, e posições mais abertas, com uso do espaço e deslocamentos, acontece de forma fluida e contínua ao longo da dança.
A corporalidade tende a se manter leve, com uma sensação de elevação e elasticidade, abrindo espaço para momentos de criatividade e diálogo entre eu e ela.
Mais do que ilustrar uma única forma de dançar, o vídeo evidencia justamente essa abertura - uma possibilidade entre várias dentro do universo do forró universitário.
Forró universitário e outras vertentes do forró: o que muda na prática
Comparar o forró universitário com outras vertentes do forró ajuda a entender melhor suas características.
No forró eletrônico, a dança tende a ter menos deslocamento pelo espaço e menos trocas de lugar entre o casal. O foco está nas marcações corporais, especialmente no quadril, com acentos mais definidos e movimentos mais rápidos e localizados, o que gera uma sensação de energia mais concentrada.
Já no forró roots, a lógica se organiza de forma mais clara em torno da posição fechada, com maior foco em caminhadas, jogo de pernas e uma corporalidade mais conectada ao chão. A postura tende a ser mais firme e estruturada, com influências de danças como a gafieira e o tango.
Isso não significa, no entanto, que o roots se limite ao casal fechado. Também existem momentos em posição aberta e uma variedade de giros que se desenvolvem nesse contexto. A diferença está mais na frequência e no caráter desses movimentos dentro da dança.
O forró universitário costuma se diferenciar por permitir maior mobilidade entre essas possibilidades, alternando entre momentos mais abertos e mais próximos dentro da mesma dança.
Mas essa mobilidade não significa que o forró universitário seja predominantemente uma dança aberta. Pelo contrário, uma parte importante da sua linguagem está justamente na alternância entre momentos mais abertos e momentos mais próximos.
É comum encontrar danças coladas, com base simples, marcadas por conforto, fluidez e qualidade no abraço. Esse “chamego” faz parte da experiência tanto quanto os giros.
A diferença está em como o casal fechado é usado dentro de cada vertente. No forró roots, o abraço próximo costuma servir como base para caminhadas, travas, giros junto, sacadas de perna e variações de pisadas. No forró eletrônico, ele se conecta mais com o balanço e o jogo de quadril. Já no forró universitário, muitas vezes, o casal fechado se torna o espaço do aconchego, da pausa e da qualidade da conexão.
Conclusão: uma expansão da base, não uma ruptura
O forró universitário na dança não representa uma ruptura completa, mas uma continuidade em transformação. Ele mantém a base do forró tradicional enquanto amplia suas possibilidades de organização, incorporando novas influências e formas de movimento.
Inclusive, em uma conversa que gravei para o canal do Forró New York no YouTube com o professor Vitinho Maia, de Brasília, uma das referências na educação da dança do forró hoje, surgiu uma leitura que ajuda a organizar bem essa ideia. Na visão dele, o que chamamos de forró universitário na dança pode ser entendido como uma atualização do forró pé de serra.
Talvez seja justamente essa continuidade - mais do que uma ruptura - que ajude a entender por que o forró universitário é, ao mesmo tempo, tão reconhecível e tão aberto a diferentes interpretações.
No vídeo abaixo, exploramos essa ideia com mais profundidade, discutindo as diferentes vertentes do forró, tanto na música quanto na dança.
FAQ: dúvidas comuns sobre o forró universitário na dança
O forró universitário é um estilo específico de dança?
Não exatamente. O forró universitário não é um estilo fechado com regras fixas, mas uma forma de dançar que se desenvolve dentro de um movimento cultural mais amplo, ligado à expansão do forró em contextos urbanos.
Nesse processo, a dança passa a incorporar novas possibilidades de movimento e organização do corpo, influenciada pelo contato com outras linguagens, especialmente no uso de giros e deslocamentos. Essas influências não aparecem como cópia direta de outros estilos, mas como assimilação e adaptação dentro da lógica do forró.
Qual a diferença entre forró universitário e forró roots?
O forró roots é frequentemente associado a um desdobramento que se desenvolve, em muitos contextos, dentro do universo do forró universitário. Em um primeiro momento, em muitos desses contextos, pessoas que já dançavam o forró universitário começam a incorporar outros elementos à dança e a ajustar a linguagem corporal, criando uma nova forma de organização do movimento dentro desse ambiente.
Com o tempo, essa abordagem vai se consolidando e se diferenciando cada vez mais, até assumir um caráter próprio, com uma identidade clara. Apesar de partirem de uma base comum, hoje o forró universitário e o roots podem apresentar linguagens bastante distintas, com repertórios de movimento e formas de organização do corpo diferentes.
Não se trata de um estilo mais simples ou mais complexo, mas de uma diferença de ênfase e de caráter.
No roots, a dança tende a se organizar mais em posição fechada, com foco em caminhadas, jogo de pernas e variações de pisadas, além de uma corporalidade mais estável e conectada ao chão, com forte influência de tradições como as de Itaúnas.
No forró universitário, é mais comum encontrar o uso frequente de ciclos de giros em posição aberta, maior mobilidade de braços e uma tendência a uma corporalidade mais leve e fluida.
Se você quiser ver como essas características aparecem na prática, com exemplos e uma análise mais detalhada, existe um artigo específico dedicado a esse tema:
Qual a diferença entre forró pé de serra e forró universitário na dança?
O termo “forró pé de serra” costuma ser usado para se referir a formas mais tradicionais de tocar e dançar forró, associadas à base do “dois pra cá, dois pra lá” e suas variações.
Já o forró universitário surge como um desdobramento desse universo, dentro de um movimento cultural específico, em que o forró passa a circular em novos contextos urbanos e a incorporar outras influências.
Na prática, essa diferença nem sempre é clara. Muitas pessoas usam “pé de serra” para se referir também ao que hoje se dança como forró universitário, entendendo essa forma como uma continuidade ou atualização do estilo.
Isso revela uma questão importante: o termo “forró universitário” faz mais sentido como descrição de um movimento cultural e musical do que como um estilo de dança rigidamente definido. A forma de dançar pode existir independentemente do repertório musical, o que mostra que essas classificações são, em parte, simplificações de um processo mais complexo.
No forró universitário, dança-se sempre em posição aberta?
Não. Apesar da presença de giros e deslocamentos, uma parte importante da dança acontece em posição fechada. A alternância entre momentos abertos e próximos é justamente uma das características do forró universitário.
É preciso saber muitos passos para dançar forró universitário?
Não. A base da dança continua sendo simples. O que muda é a forma como essa base pode ser expandida ao longo do tempo, permitindo que o repertório cresça de maneira gradual.
O que define um bom dançarino de forró universitário?
Um bom dançarino de forró universitário costuma combinar controle de corporalidade, fluidez de movimento e um repertório que transita tanto entre posições abertas quanto fechadas.
Mas, além disso, a plasticidade do estilo exige algo mais: a capacidade de usar essa linguagem de forma criativa e musical, construindo uma dança que seja ao mesmo tempo confortável, expressiva e adaptada ao parceiro.
Se você quiser aprofundar um desses aspectos - especialmente a musicalidade, que é uma das áreas que mais desenvolvo no meu trabalho - eu escrevi um artigo específico sobre esse tema:
Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.




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