O Que os Vídeos de Dança Revelam Sobre o Forró
- Rafael Piccolotto de Lima

- May 13
- 6 min read
Alguns dos conteúdos mais assistidos que já publicamos através do Forró New York não foram tutoriais, ensaios ou materiais educativos.
Foram vídeos de dança.
Ao longo dos anos, vídeos gravados em workshops, festivais, bailes e noites de música ao vivo acumularam milhões de visualizações entre YouTube, Instagram e outras plataformas. E honestamente, eu entendo o porquê.
A dança é visual por natureza.
Antes de entenderem a estrutura da dança em si, as pessoas geralmente respondem primeiro ao movimento, à atmosfera, à interação e à sensação de que algo vivo está acontecendo entre duas pessoas em tempo real.
Para muita gente, o fascínio pelo forró começa simplesmente observando outras pessoas dançando - numa festa, num festival ou, hoje em dia, muitas vezes através de vídeos online.
Esta playlist reúne algumas das demonstrações e momentos de dança social que acabaram se tornando parte da história do canal do Forró New York ao longo dos anos.
Muitos desses vídeos nunca foram originalmente planejados como “conteúdo”. Eles aconteceram depois de workshops, durante festivais ou em momentos onde as pessoas simplesmente decidiram dançar.
Com o tempo, as próprias demonstrações de workshop também passaram a fazer parte da cultura do forró. Elas deixaram de ser apenas explicações do material da aula. Muitas vezes se tornam espaços onde os dançarinos experimentam, brincam, improvisam, celebram e criam pequenas memórias ligadas a lugares, festivais e comunidades específicas.
E talvez isso faça parte do que torna alguns desses vídeos memoráveis.
As Histórias Por Trás Desses Vídeos
Com este artigo, quis trazer um pouco mais de vida e contexto para alguns desses vídeos que acabaram sendo vistos por tantas pessoas através do nosso canal no YouTube.
Escolhi essas danças não necessariamente porque sejam as “melhores” ou as mais assistidas, mas porque juntas revelam um pouco da diversidade da dança, dos lugares onde ela acontece e do ecossistema de pessoas, workshops, festivais, amizades e colaborações ao redor do forró em Nova York e além.
Vídeos de Dança Como Memórias Compartilhadas
O primeiro vídeo abaixo foi gravado em Campinas, minha cidade natal, durante um workshop de musicalidade em 2025.
O workshop explorava como diferentes maneiras de pisar, reorganizar o peso do corpo e manipular frases rítmicas podem transformar completamente a sensação da dança. Era menos sobre memorizar movimentos e mais sobre manipular tempo e intenção musical através do corpo.
Outra dança que se tornou muito especial para mim foi gravada na Fuá Escola de Dança, em São Paulo, com Mara Figueiredo.
Eu tinha ido até lá simplesmente para visitar a escola, assistir às aulas e gravar material para um pequeno vlog. Nós nunca tínhamos dançado juntos antes e não existia nenhum plano de filmar uma demonstração.
Em algum momento depois da aula, perguntei casualmente:
“Vamos dançar uma?”
E logo em seguida:
“Estou gravando um videozinho para o canal… posso filmar isso também?”
Foi só isso.
O vídeo que existe hoje foi simplesmente a nossa primeira dança de verdade juntos.
O que eu ainda gosto nele é justamente essa sensação de duas pessoas descobrindo gradualmente o tempo, a energia, o humor e a linguagem corporal uma da outra em tempo real.
Até hoje, continua sendo um dos meus vídeos favoritos do canal.
O próximo vídeo foi gravado depois de um workshop para iniciantes na Filadélfia com Alice Rodrigues, durante os primeiros dias dela nos Estados Unidos para uma série de atividades ligadas ao Forró New York Weekend.
E esse vídeo carrega uma memória muito especial para mim por outro motivo:
Também foi a primeira dança de verdade que tivemos juntos.
Até aquele momento, nós só nos conhecíamos através de vídeos online, recomendações de amigos e conversas sobre eventualmente colaborarmos.
Depois da aula, muitos alunos já tinham ido embora, mas um grupo menor ficou na sala dançando e conversando com a gente. Em algum momento, um dos alunos perguntou se poderíamos dançar uma música para que ele observasse como os movimentos e ideias trabalhados na aula apareciam dentro da dança social.
Alguém filmou aquele momento quase casualmente, e o resultado acabou virando este vídeo no canal.
O workshop era focado em movimentos muito básicos e fundamentos do forró para iniciantes. Então, ao invés de tentar criar algo complexo na demonstração, simplesmente dançamos utilizando exatamente as mesmas ideias exploradas durante a aula.
O que surgiu foi uma dança construída quase inteiramente com vocabulário simples, mas cheia de escuta, suavidade e criatividade dos dois lados.
Para mim, esse vídeo captura algo muito humano sobre o começo de uma conversa dançada entre duas pessoas.
O workshop aconteceu no Halloween, o que também explica por que estou vestido de Peter Pan enquanto Alice aparece usando orelhas da Minnie.
Este vídeo também é um bom exemplo de uma interpretação mais moderna e fluida do forró universitário, o estilo que mais moldou minha própria formação na dança.
Muitas das dinâmicas de movimento, transições, brincadeiras rítmicas e qualidades relacionais que aparecem nessa dança vêm diretamente dessa tradição, embora reinterpretadas através de uma visão mais contemporânea e pessoal desenvolvida ao longo de anos dançando, ensinando e interagindo com diferentes comunidades.
Improvisação e Conversa Musical
Um dos workshops mais diferentes que já dei aconteceu ao lado do acordeonista Zeu Azevedo e da professora alemã de forró Hannah durante o Forró New York Weekend.
Ao contrário de muitos workshops de musicalidade que utilizam músicas gravadas ou exercícios simplificados de percussão, essa aula foi construída inteiramente em torno do acordeon ao vivo.
Isso mudou completamente a dinâmica do workshop.
Ter um acordeonista de alto nível interagindo com os dançarinos em tempo real abriu possibilidades muito diferentes para discutir fraseado, melodia, tensão, silêncio, síncope e interpretação rítmica dentro da dança.
O workshop acabou sendo tão especial que mais tarde transformei todo o material gravado em conteúdo bônus dentro dos programas online do Forró New York.
No final da aula, virei para o Zeu e falei brincando:
“Por favor, desafie a gente.”
A Hannah imediatamente olhou para mim preocupada e começou a rir, sem saber o que viria pela frente.
A dança que surgiu depois virou uma das minhas demonstrações favoritas do canal porque quase tudo que acontecia ali estava sendo negociado em tempo real através das reações ao acordeon.
Em alguns momentos, a interação lembrava quase teatro de improviso. Certos gestos, pausas, brincadeiras e ideias de movimento surgiam espontaneamente do diálogo entre música e dança, incluindo elementos que nem faziam parte do vocabulário tradicional do forró, mas apareciam naturalmente através da improvisação e da reação.
Nada tinha sido planejado.
Different Styles and Personalities Inside Forró
A próxima demonstração traz Victor Maia e Pamela Barron durante a edição de outono de 2023 do Forró New York Weekend.
O Victor é uma daquelas pessoas que parecem carregar um repertório gigantesco de movimentos dentro do corpo. Ver ele dançando frequentemente dá a sensação de observar alguém reorganizando possibilidades em tempo real.
Existem movimentos, transições e ideias aparecendo ao longo da dança que raramente se vêem explorados daquela maneira em ambientes de dança social.
Ao mesmo tempo, o que torna a interação especialmente interessante é a adaptabilidade da Pamela ao longo da dança. A capacidade dela de absorver, reorganizar e responder fluidamente às mudanças constantes dentro da interação é impressionante de observar.
Um dos vídeos mais assistidos da história do canal do Forró New York foi gravado antes da pandemia com Bento Sales e Milena Morais.
O Bento ficou muito conhecido pela sua conexão com as estéticas do roots ligadas ao Espírito Santo, enquanto a Milena traz uma enorme sensibilidade e fluidez para a interação.
Algo na atmosfera daquela dança ressoou muito fortemente online e acabou transformando o vídeo em um dos maiores da história do canal.
Este último vídeo traz Marcio “Juruna” e Raisa Abdeen durante uma das primeiras edições pós-pandemia do Forró New York Weekend.
O Juruna é uma das figuras mais emblemáticas ligadas à tradição do roots de Itaúnas, conhecida pelo groove mais aterrado, puladinho rítmico, interações de perna e uma qualidade de movimento muito característica.
Para quem está descobrindo o forró agora, vídeos como esse ajudam a revelar o quão ampla a dança pode se tornar sem perder a conexão com as mesmas raízes musicais.
E curiosamente, embora o vídeo anterior com Bento Sales e Milena Morais e esta dança com Marcio “Juruna” e Raisa Abdeen sejam ambos frequentemente associados à estética roots, eles representam interpretações muito diferentes dentro desse universo.
Um se aproxima mais da fluidez e da conexão aterrada, enquanto o outro carrega influências muito mais fortes do bounce rítmico, das interações de perna e do vocabulário associado à tradição de Itaúnas.
Se você tiver curiosidade sobre como essas diferentes vertentes coexistem dentro do forró contemporâneo, este artigo explora essas diferenças com mais profundidade:
Algumas Histórias Por Trás da Playlist
Essas foram apenas algumas das histórias por trás de alguns dos vídeos presentes nesta playlist.
Se você ainda não explorou a playlist completa, convido você a passar um tempo com os outros vídeos por lá.
SOBRE O AUTOR
Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.







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