Viajando Para Dançar Forró
- Rafael Piccolotto de Lima

- Mar 8, 2019
- 5 min read
Updated: May 18
Nota editorial (2026):
Escrevi este texto originalmente em 2019, num período em que eu começava a viajar com mais intensidade por diferentes cenas de forró na América do Norte como professor e organizador.
Hoje, olhando para trás, percebo que este texto registra um momento interessante de transição, tanto pessoalmente quanto dentro do próprio desenvolvimento das cenas de forró nos Estados Unidos e Canadá.
Desde então, muitos dos projetos, festivais e comunidades mencionados aqui evoluíram significativamente, incluindo o crescimento do Forró New York Weekend e da própria cena de forró em Nova Iorque.
Ao invés de reescrever completamente este texto, decidi preservar boa parte de sua perspectiva original como um documento daquele período.
Épocas de transição nos fazem pensar.
Pelo menos é isso que acontece comigo.
Cerca de três anos atrás, enquanto concluía meu doutorado em Miami, meus pensamentos estavam muito voltados para os próximos passos da minha carreira.
Ao mesmo tempo, eu também refletia sobre outras experiências que gostaria de viver, mas que até então nunca haviam sido prioridade para mim.
Entre elas, estava viajar para dançar forró, especialmente participar de festivais.
Desde que comecei a dançar com mais regularidade, eu já ouvia falar dos festivais de Itaúnas e, a partir do começo dos anos 2010, também comecei a ouvir sobre os eventos realizados na Europa.
Mas eu nunca tinha participado de nada disso.
Minha vivência forrozeira se limitava principalmente aos forrós de Campinas, minha cidade natal, tanto durante os anos de graduação quanto nas férias de verão da pós-graduação, quando voltava para casa para matar a saudade.

Em termos de música, ambiente e parceiras de dança, não posso reclamar.
Campinas foi sede de uma das melhores casas de forró do interior paulista nos anos 2000, a Cooperativa Brasil.
Por lá passaram grande parte das bandas importantes da época, desde trios mais tradicionais de pé-de-serra, como Trio Xamego e Trio Nordestino, até bandas associadas ao movimento do forró universitário, como Falamansa, Circuladô de Fulô e Rastapé.
Minhas experiências “fora de casa” se limitavam a alguns forrós em São Paulo, como o Canto da Ema e o Remelexo, algumas festas no litoral paulista, um forró em Natal e outro em Curitiba.
Mas festival mesmo… nunca.
Isso estava prestes a mudar drasticamente.
Mal imaginava eu que em pouco tempo estaria vivendo experiências muito diferentes, e de um ponto de vista completamente distinto: como professor.
Engraçado como as coisas mudam.
Eu passava da posição de frequentador de festas para alguém envolvido na formação de novos forrozeiros e também no fortalecimento da cena em Nova Iorque.
Com essa oportunidade de ensinar, começaram a surgir convites para levar o estilo de Campinas para outras plateias e geografias.
Meu primeiro festival como professor aconteceu no Forró Fest USA, em Boston, em 2017, um evento importante naquele momento inicial da formação do circuito de festivais de forró nos Estados Unidos.
Desde então, participei de muitos outros eventos.
Dei aulas no Boston Brazil Dance Festival 2017, no NY Forró Fest 2018 - onde também atuei como coordenador pedagógico -, no Forró Fest USA 2018 e, mais tarde, no Forrobodó NY Festival, que idealizei e produzi.
Todos esses eventos foram experiências extremamente enriquecedoras, tanto culturalmente quanto pessoalmente.
Foram oportunidades de conhecer, dançar e criar laços de amizade com alguns dos principais dançarinos e professores de forró em atividade naquele momento, como Valmir e Milena, de Belo Horizonte, Juruna, de Itaúnas, Camila Alves, de Lisboa, Erika Magno, de Santos, Anax Caracol, de Londres, Evandro Paz, de São Paulo, entre muitos outros.
Foi também a oportunidade de encontrar muitas pessoas que, assim como eu, eram apaixonadas o suficiente por essa cultura a ponto de viajar simplesmente para dançar.

Sinto que todas essas experiências vêm reinventando minha maneira de dançar.
Durante doze anos, dancei forró com um “sotaque” muito característico de Campinas, usando um repertório de movimentos e uma linguagem corporal bastante típica do interior paulista.
Alguns desses movimentos pareciam quase marcas registradas daquela região, coisas que eu raramente via em outras pistas.
Hoje percebo quantos outros “sotaques” cheios de personalidade existem dentro do forró, quantas outras formas de dançar que eu ainda queria aprender e experimentar.
Uma das coisas que mais gosto nos festivais é justamente voltar à posição de aprendiz nas aulas dos meus colegas professores.
É a chance de descobrir outros movimentos e mergulhar mais profundamente em diferentes maneiras de se dançar forró.

Concluo esta postagem enquanto começo a tirar a poeira da bagagem, ansioso pelas próximas viagens, eventos e encontros que ainda estavam por vir.
Festivais são ambientes muito especiais para intercâmbio de experiências, aprendizado e reencontros através da música e da dança.
Hoje, olhando para trás, percebo como muitas das cenas e festivais mencionados aqui continuaram evoluindo de maneiras diferentes. Alguns se estruturaram mais, outros desapareceram, e novas comunidades surgiram em diferentes partes da América do Norte.
O que permanece constante é o papel que essas viagens tiveram na minha maneira de entender o forró - não apenas como dança, mas como uma rede de comunidades, intercâmbios artísticos e encontros culturais espalhados por diferentes cidades e países.
Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.






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