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Corporalidade - reflexões sobre a dança a dois

Updated: Jun 11

Rafael Piccolotto de Lima e Camila Alves dançando forró à beira do rio em Nova York, com o skyline de Manhattan ao fundo.
Rafael Piccolotto de Lima e Camila Alves dançando forró à beira do rio em Nova York, com o skyline de Manhattan ao fundo.

"Propriedade do que é corpóreo."

Na dança a dois costumamos falar sobre técnica, musicalidade, conexão e repertório de movimentos. Mas existe uma camada mais difícil de definir e explicar: a corporalidade. Este texto é uma reflexão sobre como algumas experiências, encontros e períodos de prática individual transformaram minha maneira de pensar a expressão corporal no forró.


Hoje, nesse blog um tanto quanto diferente, eu compartilho uma experiência recente, um processo no qual eu me vejo ainda bem imerso.


Nesse período de quarentena eu percebo acentuada uma fase de descobrimento e exploração interna que já vinha tomando minha dança faz algum tempo.


Entrando no universo de dança de outra pessoa


Ano passado eu tive a alegria de receber aqui em casa e viajar em turnê pelos Estados Unidos e Canadá com duas das dançarinas e professoras de forró que eu mais admiro: Camila Alves e Milena Morais.


Foram mais de dois meses com elas que tiveram um grande impacto na minha vida. E tudo isso não foi por acaso; em um esforço para ajudar a cena local expandir horizontes, eu me vi nessa posição privilegiada de poder realizar esse desejo pessoal. Poder estar ao lado destas duas profissionais que admiro e através dessa vivência desafiar os limites da minha própria dança.



Entre os meses de agosto e setembro Camila esteve comigo. Milena veio em outubro. Para as duas eu disse uma coisa muito parecida: "quero poder entrar no seu mundo, aprender um pouco com sua maneira de dançar, de certa maneira, poder ver a dança através dos seus olhos". Também falei para elas que uma das grandes razões de colocar todo o esforço - que revelo aqui, não foi pouco - pra fazer essas duas turnês acontecerem, foi poder me colocar à prova com elas.



Desde o final da minha adolescência eu entendi a importância de me cercar e atuar com quem admiro. Acredito que essa é a maneira na qual temos mais chances de evoluir para uma direção desejada e criar coisas das quais nos orgulhamos. Tenho feito isso toda a vida, e essa história é mais um exemplo disso.


A frustração de não saber exatamente como melhorar


Perguntei para as duas, inúmeras vezes, no que posso melhorar? O que eu posso fazer diferente na minha dança? Ambas falavam pouco, diziam que precisavam pensar e de certa maneira, intencional ou não, se esquivavam de uma resposta direta. Mas a cada dança, a cada final de aula, quando fazíamos uma pequena demonstração aos alunos, eu me via imensamente desafiado pela maneira delas dançarem, desafiado pelo meu desejo em contribuir mais e de melhor forma com aquela dança a dois. Responder à corporalidade delas, à musicalidade e um repertório de passos diferente do meu.



Aqui confesso minha frustração em muitas vezes não saber como melhor responder as improvisações - porque sim, todas essas demonstrações são improvisadas. Minhas conclusões pessoais seguiam o padrão das respostas diretas que eu (não) recebia delas. A cada dança eu tentava coisas diferentes. Não havia um caminho claro a minha frente.


Em contraponto a essa frustração também havia uma enorme satisfação gerada por esse desafio, a sensação da potência transformadora e evolutiva daqueles momentos. Entendo que de certa maneira a beleza esteja justamente nesse processo criativo de adaptação e descobrimento.



A dança a dois tem essa magia, a criação de momentos únicos como resultado da corporalidade, musicalidade e repertório dos dois dançarinos misturados. E ao dançar com elas eu sentia - mais do que nunca - toda essa latência. Com seus corpos elas me sugeriam aquilo que as palavras às vezes não diziam. Era - e ainda continua sendo - um processo de re-descobrimento das possibilidades dos meus próprios movimentos.


Em uma das noites aqui em casa, Milena e eu resolvemos dançar na sala de ioga que fica vazia durante a madruga. Nessa ocasião ela finalmente me fez comentários mais alongados, me lançou uma frase, abstrata naquele momento, mas que vem fazendo muito sentido agora. Ela disse algo do tipo: "trabalhe mais seu corpo na dança". Pouco entendi no momento, menos ainda vi um caminho claro de mudança. Dançamos bastante e aos poucos ela me sugeriu alguns caminhos de exploração. Exploramos juntos, foi uma delícia! Mas eu sabia que aquilo seria uma jornada muito mais longa.


Se você se interessa pela relação entre movimento, expressão corporal e interpretação musical na dança, talvez também goste de ler As 3 camadas da musicalidade na dança: percepção, corpo e expressão.



Redescobrindo o corpo durante o isolamento


Hoje, meses depois, acredito que venho entendendo melhor o que ela queria me dizer, aquilo que o corpo dela e da Camila me mostravam a cada dança, cada uma à sua maneira.


E isso tem tudo a ver com esse momento que vivemos agora. Desde que essa quarentena começou e eu passei a dar aulas online, estive muito focado no desenvolvimento pessoal dos meus alunos, no aperfeiçoamento das bases individuais. Nesse momento quase tudo que eu penso, pratico e falo pra eles são maneiras de expressar a música através do corpo - o corpo todo. Corporalidade e musicalidade. Muito relacionado a essa exploração pessoal provocada dessa maneira tão intensa e desafiadora com Camila e Milena.




Corporalidade, musicalidade e dança a dois


Durante mais de 15 anos dançando forró socialmente e mais de 3 anos dando aulas regularmente, meu grande foco sempre esteve em fazer a dança funcionar a dois, fazer o abraço ser gostoso e os passos encaixarem na música. Agora, desde que tive essa experiência, eu sinto que "meu corpo de dança" vem também tomando o centro do palco. Outras possibilidades vem se abrindo.


Nesses quase 3 meses de isolamento social em função da pandemia eu tenho dançando bastante sozinho. Tem sido uma experiência desafiadora, mas também satisfatória a sua maneira. Confesso que agora, depois de tudo isso, aguardo ansiosamente a oportunidade de re-descobrir meu corpo também no corpo de outro alguém.


Corporalidade. A minha, a sua, e, possivelmente, a nossa juntos.


Epílogo


Ao concluir esse blog em maio de 2020, obviamente enviei esse texto para revisão da Camila e Milena, já que ambas são protagonistas desta narrativa.


Resultado? Recebi uma pequena lista de críticas e comentários. Haha.


Brincadeiras a parte, ambas fizeram comentários durante nossa vivência nessas turnês. Essa noite de explorações com a Milena expandiu meus horizontes de possibilidades e me fez repensar minha dança como um todo. Camila por outro lado sempre pegava no meu pé pela postura das minhas costas. Além disso, os temas em si que preparamos para as aulas também tiveram grande influência na minha maneira de enxergar e ensinar a dança, seja confirmando convicções que eu já tinha, ou me fazendo pensar em outras possibilidades.


Acredito que não exista um único caminho certo. Cada dança e cada parceira traz uma bagagem única e vê a dança com olhos diferentes. Recebi comentários distintos, e por vezes quase contraditórios em certos assuntos. E que bom que é assim! Continuemos essa nossa exploração corporal.


Selfie de Rafael Piccolotto de Lima e Milena Morais dentro de um avião a caminho de São Francisco durante uma turnê de forró pelos Estados Unidos.
Selfie ao lado da Milena Morais dentro de um avião a caminho de São Francisco durante uma turnê de forró pelos Estados Unidos.

Felizmente pudemos fazer um registro dessas viagens, aulas e eventos. Para quem tiver mais curiosidade, deixo aqui duas playlists de videos no youtube dessa experiência toda:


Playlist de vídeos com a Milena Morais:


Playlist de vídeos com a Camila Alves:


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Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.




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