O que é o estilo de dança Forró Roots?
- Rafael Piccolotto de Lima

- May 2
- 6 min read
Updated: 2 days ago
Forró Roots é um estilo de dança de forró relativamente novo e em crescimento entre forrozeiros no Brasil e ao redor do mundo.
Mas por que as pessoas chamam de Roots se é um estilo novo?
O surgimento do estilo Forró Roots
O nome “Roots” está diretamente ligado às origens do estilo.
Ele se desenvolveu, ganhou visibilidade e força no Brasil principalmente em meados da década de 2010, especialmente em festas e eventos que priorizavam músicas mais tradicionais - as “raízes” musicais do forró. Ainda assim, muitas pessoas argumentam que o termo “roots” não surgiu por essa associação musical. Muito menos como uma tentativa de retornar a uma maneira “originária” de dançar.
As origens exatas são difíceis de definir, mas muitos forrozeiros apontam o Festival Nacional de Forró de Itaúnas (FENFIT) e principalmente o Rootstock Forró Festival como espaços importantes para sua evolução.
Como esse movimento ainda é relativamente recente e continua em evolução, muitos aspectos de sua história permanecem abertos a interpretações. As perspectivas apresentadas aqui são baseadas em observações, conversas e experiências acumuladas ao longo dos anos, e não em uma tentativa de estabelecer um relato histórico definitivo.
Precursores do estilo
Antes do termo “Forró Roots” existir, já havia dançarinos explorando caminhos semelhantes.
Lembro de ir a bailes de forró em Campinas, em meados e no final dos anos 2000, e perceber que algumas pessoas dançavam de forma diferente da maioria.
Enquanto a maior parte das pessoas dançava o Forró Universitário, um pequeno grupo utilizava menos giros abertos e incorporava caminhadas e pequenos chutes no repertório.
Se você não está familiarizado com o estilo Universitário, este conteúdo pode servir como referência para comparação:
Esses dançarinos frequentavam um espaço em São Paulo chamado Remelexo, onde uma outra abordagem de dança estava emergindo.
Na época, costumávamos chamar esse estilo de “Paulistinha”.
Uma das figuras importantes desse movimento foi Evandro Paz, professor do Remelexo, que se referia ao seu estilo como “Forró Balada” ou “Forró Urbano”.
Embora diferente do que hoje chamamos de Roots, já indicava uma alternativa ao padrão Pé-de-Serra tradicional ou Universitário.
Enquanto essas experiências aconteciam em Campinas e São Paulo, é muito provável que movimentos semelhantes também estivessem acontecendo em outros bailes e cidades, impulsionados pela troca constante entre dançarinos, festas e festivais.
Um estilo não nasce de uma única pessoa
É difícil atribuir a criação de um estilo de dança social a uma única pessoa, escola ou momento específico.
Diferente de formas artísticas mais individuais, a dança social se desenvolve através das relações entre pessoas, bailes, festivais e comunidades. Movimentos e estéticas surgem aos poucos, a partir de experimentações e influências compartilhadas.
Algumas pessoas apontam Daniel Marinho como uma figura influente no desenvolvimento do que hoje chamamos de Forró Roots. E, de fato, sua maneira de dançar, ensinar e circular pela cena teve um impacto importante nesse processo.
Ao mesmo tempo, sua dança também foi construída a partir de referências anteriores, trocas com outros dançarinos, observação de diferentes estilos e da própria experiência social dos bailes.
Esse processo ajuda a entender como estilos se desenvolvem na dança social: gradualmente, através de referências compartilhadas, trocas culturais e experiências coletivas dentro da comunidade.
Características do Forró Roots
O Forró Roots apresenta diferenças claras em relação ao forró pé-de-serra e universitário, especialmente no vocabulário de movimento e na linguagem corporal.
As fronteiras entre esses estilos nem sempre são totalmente definidas, e muitas pessoas entendem o Universitário como uma modernização do Pé-de-Serra tradicional. Ainda assim, existem diferenças importantes na forma como cada abordagem organiza movimentos, dinâmica e relação corporal dentro da dança.
O Pé-de-Serra tradicional costuma ser associado a uma dança estruturalmente mais simples, baseada principalmente na marcação lateral em casal fechado - o famoso “dois pra cá, dois pra lá”, expressão ainda muito presente dentro da cultura do forró.
Enquanto o Universitário foi influenciado (direta ou indiretamente) por danças com giros em posição aberta, como Salsa e Samba-Rock, o Roots tende a favorecer movimentos em posição fechada, com maior corporatilidade e uso de figuras que podem lembrar o Samba de Gafieira ou até mesmo o Tango - não por uma descendência direta, mas por similaridades observadas na dinâmica corporal e na organização dos movimentos.
Por mais que existam inúmeras variações dentro do estilo, algumas características aparecem com frequência no Roots:
Foco em movimentos em posição fechada
Abraço variável, ajustando proximidade e ângulo conforme o movimento
Ênfase no trabalho de pés e na parte inferior do corpo
Menor uso de braços e parte superior do corpo
Uso de sacadas de perna
Caminhadas e giros em posição fechada
Uso de contratempos e variações rítmicas nos pés
Preferência por músicas de andamento médio
Além disso, o giro invertido, também conhecido como “Giro Paulista”, é bastante associado ao estilo.
Esse movimento foi muito comum em São Paulo nos anos 2000, perdeu espaço com a popularização dos giros de 5 tempos e voltou a ganhar destaque com o Roots.
O nível técnico e o ponto de entrada
Esse é um tema importante (que pode ser controverso).
O Forró Universitário é conhecido por ser acessível e acolhedor. Com poucos passos básicos, iniciantes já conseguem participar de bailes.
Já o Forró Roots costuma exigir maior controle técnico e precisão corporal. Isso pode torná-lo menos acessível para quem está começando. O ambiente também pode parecer mais exigente.
Ao mesmo tempo, o Universitário também pode se tornar complexo em níveis mais avançados.
A principal diferença está no ponto de entrada.
Essa mudança reflete transformações mais amplas na forma como o forró vem sendo ensinado.
Existe música de Forró Roots?
Não.
O que existe é uma preferência. Dançarinos de Roots tendem a escolher músicas que funcionam melhor com esse tipo de movimento. Mas essas mesmas músicas também podem ser usadas para dançar outros estilos de forró.
Não existe um gênero musical chamado Forró Roots. Ainda assim, DJs de forró - especialmente os que tocam vinil - costumam montar sets com músicas de andamento médio, ritmo forte e estética mais tradicional.
A diversidade dentro do Forró Roots
Um aspecto importante dessa discussão é que diferentes pessoas frequentemente usam o termo “Roots” para descrever estilos de dança bastante diferentes entre si.
Dois exemplos interessantes são Daniel Marinho e Marcio “Juruna”, ambos frequentemente associados ao universo do Forró Roots, mas com abordagens muito distintas.
Enquanto Marinho apresenta uma dança mais fluida, contínua e com forte desenvolvimento de movimentos em posição fechada, Juruna traz uma abordagem mais rítmica, groovada e ligada à energia social dos bailes de Itaúnas. Algumas pessoas se referem ao estilo dele simplesmente como “Estilo Itaúnas”.
É justamente aí que surgem muitas das discussões sobre nomenclatura e influência dentro da cena.
Algumas pessoas ligadas à cultura tradicional de Itaúnas argumentam que o estilo dançado por Juruna não teria relação direta com aquilo que hoje muitas escolas e professores chamam de “Forró Roots”.
Outras pessoas enxergam o contrário: que o desenvolvimento do Roots contemporâneo recebeu, sim, forte influência da estética, da musicalidade e da dinâmica social presentes em Itaúnas, ainda que através de um processo gradual de transformação, adaptação e incorporação - e não de simples reprodução.
Talvez esse seja justamente um dos aspectos mais interessantes da dança social: influências circulam continuamente entre cidades, festivais e dançarinos, sendo reinterpretadas até darem origem a novas formas de dançar e identidades próprias.
Veja abaixo vídeos gravados durante o Forró New York Weekend, festival e projeto educacional que produzimos em Nova Iorque e que recebeu ambos os dançarinos e professores em diferentes edições.
Forró como dança em constante evolução
O Forró Roots não surgiu isolado de outras formas de dançar forró.
Ele se desenvolveu em bailes, festivais e comunidades onde diferentes abordagens já conviviam no mesmo salão - incluindo o Forró Universitário, o estilo de Itaúnas, variações regionais, influências pessoais e maneiras mais tradicionais de dançar.
Muitas vezes, a música era a mesma. O que mudava era a forma como cada dançarino interpretava aquilo com o corpo, com o par e com sua própria trajetória dentro da dança.
Hoje é comum ver dançarinos incorporando elementos de diferentes abordagens, criando formas híbridas de dançar forró.
Eu mesmo sou um desses dançarinos híbridos, incorporando elementos do Roots a uma base que vem do Forró Pé-de-Serra/Universitário do interior de São Paulo, onde aprendi nos anos 2000.
Outros dançarinos conhecidos que transitam bem entre essas abordagens incluem Milena Morais, Mardio Costa, Ícaro Abreu, Pamela Barrón, Victinho Maia e Camila Alves, apenas para citar alguns exemplos.
Observar a dança dessas pessoas é uma das formas mais claras de entender como esses estilos se cruzam na prática. Na série “Forró Dance React”, analisei muitos desses exemplos em detalhe.
Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.






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