top of page

O que é o estilo de dança Forró Roots?

Updated: 2 days ago

Forró Roots é um estilo de dança de forró relativamente novo e em crescimento entre forrozeiros no Brasil e ao redor do mundo.


Mas por que as pessoas chamam de Roots se é um estilo novo?


O surgimento do estilo Forró Roots


Não existe uma explicação única e consensual sobre como o nome “Forró Roots” surgiu. Ao que tudo indica, o termo foi sendo adotado organicamente pela comunidade para identificar uma maneira de dançar e uma cena que começavam a adquirir características próprias.


Uma das associações possíveis está nas próprias raízes musicais do forró. A cena que passou a ser identificada com o Roots valorizava fortemente repertórios mais tradicionais, frequentemente tocados por DJs e colecionadores de vinil, criando uma relação entre essa nova maneira de dançar e uma busca pelas “raízes” musicais do gênero.


O nome também combina com uma estética cultural mais rústica e despojada que se tornou associada a parte dessa comunidade. Festivais, acampamentos, encontros em chácaras e a própria cena de Itaúnas, com sua atmosfera de praia e informalidade, criavam um ambiente bastante diferente daquele das grandes cidades onde o Forró Universitário havia se desenvolvido e se popularizado.


Outra interpretação relaciona o termo a uma espécie de retorno às “raízes” da dança, especialmente pela valorização da posição fechada e da proximidade entre o casal. Isso não significa, porém, que o Roots tenha recuperado uma maneira antiga de dançar. Seu vocabulário de movimentos é contemporâneo e apresenta diversas inovações. O que existe é uma retomada da importância do casal fechado, desenvolvida através de uma nova linguagem.


Há ainda uma possível relação com o Rootstock Forró Festival, um dos eventos importantes para o desenvolvimento e a circulação dessa maneira de dançar. O próprio nome do festival reforçava a ideia de “roots” e ajudava a associar o termo ao público, ao repertório musical, à estética e à dança presentes nesse tipo de evento.


Essas explicações não são necessariamente excludentes. Música, maneira de dançar, festivais, ambientes e identidade cultural estavam se desenvolvendo simultaneamente e se influenciando. É possível que o próprio termo “Roots” tenha se consolidado justamente por conseguir representar diferentes aspectos dessa cena ao mesmo tempo.


As origens exatas do estilo também são difíceis de definir. Muitos forrozeiros apontam o Festival Nacional de Forró de Itaúnas (FENFIT) e principalmente o Rootstock Forró Festival como espaços importantes para sua evolução e popularização, mas movimentos relacionados também aconteciam em outras cidades e comunidades.


Como esse movimento é relativamente recente e continua em evolução, muitos aspectos de sua história permanecem abertos a interpretações. As perspectivas apresentadas aqui são baseadas em observações, conversas e experiências acumuladas ao longo dos anos, e não em uma tentativa de estabelecer um relato histórico definitivo.


Precursores do estilo


Antes do termo “Forró Roots” existir, já havia dançarinos explorando caminhos semelhantes.


Lembro de ir a bailes de forró em Campinas, em meados e no final dos anos 2000, e perceber que algumas pessoas dançavam de forma diferente da maioria.


Enquanto a maior parte das pessoas dançava o Forró Universitário, um pequeno grupo utilizava menos giros abertos e incorporava caminhadas e pequenos chutes no repertório.


Se você não está familiarizado com o estilo Universitário, este conteúdo pode servir como referência para comparação:



Esses dançarinos frequentavam um espaço em São Paulo chamado Remelexo, onde uma outra abordagem de dança estava emergindo.


Na época, costumávamos chamar esse estilo de “Paulistinha”.


Uma das figuras importantes desse movimento foi Evandro Paz, professor do Remelexo, que se referia ao seu estilo como “Forró Balada” ou “Forró Urbano”.


Embora diferente do que hoje chamamos de Roots, já indicava uma alternativa ao padrão Pé-de-Serra tradicional ou Universitário.


Enquanto essas experiências aconteciam em Campinas e São Paulo, é muito provável que movimentos semelhantes também estivessem acontecendo em outros bailes e cidades, impulsionados pela troca constante entre dançarinos, festas e festivais.


Um estilo não nasce de uma única pessoa


É difícil atribuir a criação de um estilo de dança social a uma única pessoa, escola ou momento específico.


Diferente de formas artísticas mais individuais, a dança social se desenvolve através das relações entre pessoas, bailes, festivais e comunidades. Movimentos e estéticas surgem aos poucos, a partir de experimentações e influências compartilhadas.


Algumas pessoas apontam Daniel Marinho como uma figura influente no desenvolvimento do que hoje chamamos de Forró Roots. E, de fato, sua maneira de dançar, ensinar e circular pela cena teve um impacto importante nesse processo.


Ao mesmo tempo, sua dança também foi construída a partir de referências anteriores, trocas com outros dançarinos, observação de diferentes estilos e da própria experiência social dos bailes.


Esse processo ajuda a entender como estilos se desenvolvem na dança social: gradualmente, através de referências compartilhadas, trocas culturais e experiências coletivas dentro da comunidade.


Características do Forró Roots


O Forró Roots apresenta diferenças claras em relação ao forró pé-de-serra e universitário, especialmente no vocabulário de movimento e na linguagem corporal.


As fronteiras entre esses estilos nem sempre são totalmente definidas, e muitas pessoas entendem o Universitário como uma modernização do Pé-de-Serra tradicional. Ainda assim, existem diferenças importantes na forma como cada abordagem organiza movimentos, dinâmica e relação corporal dentro da dança.


O Pé-de-Serra tradicional costuma ser associado a uma dança estruturalmente mais simples, baseada principalmente na marcação lateral em casal fechado - o famoso “dois pra cá, dois pra lá”, expressão ainda muito presente dentro da cultura do forró.


Enquanto o Universitário desenvolveu um amplo repertório de giros em posição aberta, com características também encontradas em danças como Salsa e Samba-Rock, o Roots tende a favorecer movimentos em posição fechada, com maior corporatilidade e uso de figuras que podem lembrar o Samba de Gafieira ou até mesmo o Tango - não necessariamente por uma descendência direta, mas por similaridades observadas na dinâmica corporal e na organização dos movimentos.


Por mais que existam inúmeras variações dentro do estilo, algumas características aparecem com frequência no Roots:


  • Foco em movimentos em posição fechada

  • Abraço variável, ajustando proximidade e ângulo conforme o movimento

  • Ênfase no trabalho de pés e na parte inferior do corpo

  • Menor uso de braços e parte superior do corpo

  • Uso de sacadas de perna

  • Caminhadas e giros em posição fechada

  • Uso de contratempos e variações rítmicas nos pés

  • Preferência por músicas de andamento médio


Isso não significa que o Roots seja dançado em um abraço permanentemente fechado. A proximidade, o ângulo e o espaço entre os parceiros mudam constantemente de acordo com o movimento, inclusive para permitir caminhadas, giros e figuras de pernas. Da mesma forma, a presença maior da posição fechada no Roots não significa que outros estilos, como o Universitário, sejam necessariamente dançados em posição aberta.


Além disso, o giro invertido, também conhecido como “Giro Paulista”, é bastante associado ao estilo.


Esse movimento foi muito comum em São Paulo nos anos 2000, perdeu espaço com a popularização dos giros de 5 tempos e voltou a ganhar destaque com o Roots.


O nível técnico e o ponto de entrada


Esse é um tema importante (que pode ser controverso).


O Forró Universitário é conhecido por ser acessível e acolhedor. Com poucos passos básicos, iniciantes já conseguem participar de bailes.


Já o Forró Roots costuma exigir maior controle técnico e precisão corporal. Isso pode torná-lo menos acessível para quem está começando. O ambiente também pode parecer mais exigente.


Ao mesmo tempo, o Universitário também pode se tornar complexo em níveis mais avançados.


A principal diferença está no ponto de entrada.


Essa mudança reflete transformações mais amplas na forma como o forró vem sendo ensinado.



Existe música de Forró Roots?


Não.


O que existe é uma preferência. Dançarinos de Roots tendem a escolher músicas que funcionam melhor com esse tipo de movimento. Mas essas mesmas músicas também podem ser usadas para dançar outros estilos de forró.


Não existe um gênero musical chamado Forró Roots. Ainda assim, DJs de forró - especialmente os que tocam vinil - costumam montar sets com músicas de andamento médio, ritmo forte e estética mais tradicional.


A diversidade dentro do Forró Roots


Um aspecto importante dessa discussão é que diferentes pessoas frequentemente usam o termo “Roots” para descrever estilos de dança bastante diferentes entre si.


Dois exemplos interessantes são Daniel Marinho e Marcio “Juruna”, ambos frequentemente associados ao universo do Forró Roots, mas com abordagens muito distintas.


Enquanto Marinho apresenta uma dança mais fluida, contínua e com forte desenvolvimento de movimentos em posição fechada, Juruna traz uma abordagem mais rítmica, groovada e ligada à energia social dos bailes de Itaúnas. Algumas pessoas se referem ao estilo dele simplesmente como “Estilo Itaúnas”.


É justamente aí que surgem muitas das discussões sobre nomenclatura e influência dentro da cena.


Algumas pessoas ligadas à cultura tradicional de Itaúnas argumentam que o estilo dançado por Juruna não teria relação direta com aquilo que hoje muitas escolas e professores chamam de “Forró Roots”.


Outras pessoas enxergam o contrário: que o desenvolvimento do Roots contemporâneo recebeu, sim, forte influência da estética, da musicalidade e da dinâmica social presentes em Itaúnas, ainda que através de um processo gradual de transformação, adaptação e incorporação - e não de simples reprodução.


Talvez esse seja justamente um dos aspectos mais interessantes da dança social: influências circulam continuamente entre cidades, festivais e dançarinos, sendo reinterpretadas até darem origem a novas formas de dançar e identidades próprias.


Veja abaixo vídeos gravados durante o Forró New York Weekend, festival e projeto educacional que produzimos em Nova Iorque e que recebeu ambos os dançarinos e professores em diferentes edições.




Forró como dança em constante evolução


O Forró Roots não surgiu isolado de outras formas de dançar forró.


Ele se desenvolveu em bailes, festivais e comunidades onde diferentes abordagens já conviviam no mesmo salão - incluindo o Forró Universitário, o estilo de Itaúnas, variações regionais, influências pessoais e maneiras mais tradicionais de dançar.


Muitas vezes, a música era a mesma. O que mudava era a forma como cada dançarino interpretava aquilo com o corpo, com o par e com sua própria trajetória dentro da dança.


Hoje é comum ver dançarinos incorporando elementos de diferentes abordagens, criando formas híbridas de dançar forró.


Eu mesmo sou um desses dançarinos híbridos, incorporando elementos do Roots a uma base que vem do Forró Pé-de-Serra/Universitário do interior de São Paulo, onde aprendi nos anos 2000.


Outros dançarinos conhecidos que transitam bem entre essas abordagens incluem Milena Morais, Mardio Costa, Ícaro Abreu, Pamela Barrón, Victinho Maia e Camila Alves, apenas para citar alguns exemplos.


Observar a dança dessas pessoas é uma das formas mais claras de entender como esses estilos se cruzam na prática. Na série “Forró Dance React”, analisei muitos desses exemplos em detalhe.




Perguntas frequentes sobre Forró Roots


O que é Forró Roots?


Forró Roots é um estilo relativamente recente de dançar forró, que ganhou força principalmente a partir da década de 2010. Entre suas características mais recorrentes estão o trabalho de pés e pernas, caminhadas, sacadas, variações rítmicas, giros e uma exploração particular da posição fechada e do abraço.


Essas características, porém, não constituem regras rígidas. Como acontece com outros estilos de dança social, existem diferenças consideráveis entre dançarinos, professores e comunidades que se identificam com o Forró Roots.


Forró Roots é a forma original ou tradicional de dançar forró?


Não. Apesar do nome “Roots”, o estilo que hoje recebe esse nome é relativamente recente.


Uma das interpretações do termo está relacionada a uma retomada da importância da posição fechada e da proximidade entre o casal. Isso não significa, porém, um retorno à maneira como o forró era dançado originalmente. O Roots desenvolveu um vocabulário contemporâneo próprio, com movimentos e características que não pertencem necessariamente às formas mais antigas de dançar forró.


Forró Roots e Estilo Itaúnas são a mesma coisa?


Não. Forró Roots e Estilo Itaúnas são termos relacionados e existem similaridades e influências entre essas formas de dançar, mas eles não são sinônimos.


O Estilo Itaúnas está associado à cultura de dança desenvolvida em torno dos bailes e da comunidade de Itaúnas, enquanto o que hoje é chamado de Forró Roots desenvolveu uma linguagem própria através da circulação e transformação de diferentes influências.


A relação entre essas duas vertentes é importante para compreender a história recente da dança, mas tratar Roots e Estilo Itaúnas como a mesma coisa apaga diferenças importantes entre elas.


Forró Roots é sempre dançado em abraço fechado?


Não. A posição fechada tem grande importância no Forró Roots, mas isso não significa que o casal permaneça constantemente em um abraço fixo ou completamente fechado.


O abraço no Roots frequentemente muda de ângulo, proximidade e quantidade de espaço entre os parceiros. Caminhadas, sacadas e outras figuras de pernas podem, inclusive, exigir a criação de espaço para a movimentação.


Também é uma simplificação dizer que Roots é uma dança "fechada", enquanto Forró Universitário seria uma dança "aberta". O Universitário também pode ser dançado em abraço próximo, assim como o Roots utiliza giros, deslocamentos e diferentes configurações do abraço.


Qual é a diferença entre os giros do Forró Roots e do Forró Universitário?


Os dois estilos utilizam giros. A diferença está principalmente no vocabulário e na maneira como eles são organizados.


O Roots possui giros no próprio eixo e também giros com deslocamento, mas eles geralmente ocupam uma parcela menor de seu vocabulário. O Forró Universitário desenvolveu um repertório particularmente amplo de giros e combinações, frequentemente com maior utilização dos braços e da parte superior do corpo.


Portanto, a diferença entre os estilos não pode ser resumida simplesmente como dançar "junto" ou "separado".


Como é a linguagem corporal no Forró Roots?


O Forró Roots frequentemente apresenta uma organização corporal mais controlada e uma utilização mais econômica de movimentos da parte superior do corpo. Em comparação com algumas formas de Forró Universitário, Forró Estilizado ou Forró Eletrônico, pode haver menor presença de movimentos de quadril, ondulações e outras articulações corporais mais acentuadas.


Isso não significa que o corpo no Roots seja rígido. Existe grande diversidade entre os próprios dançarinos. Alguns apresentam uma movimentação mais contida, enquanto outros incorporam movimentos de quadril, mudanças e angulações de eixo, pequenos saltos e diferentes formas de expressão corporal.


Por isso, é mais preciso entender essa característica como uma tendência estética do que como uma regra técnica.


Existe uma estética cultural associada ao Forró Roots?


Sim, embora ela não seja uma regra do estilo. Como discutido anteriormente, parte da cena Roots se desenvolveu em ambientes ligados a festivais, praia, acampamentos e encontros informais, contribuindo para uma estética mais casual, rústica e despojada.


Ela contrasta, em certa medida, com a estética urbana frequentemente associada ao Forró Universitário e, ainda mais, com algumas vertentes do Forró Estilizado ou de salão, nas quais podem aparecer roupas e calçados mais formais. Essas diferenças são tendências culturais, e não regras de vestimenta ou características necessárias para se dançar determinado estilo.


O Forró Roots só pode ser dançado com músicas antigas ou em vinil?


Não. O vinil tem importância cultural em determinadas festas, DJs e comunidades relacionadas ao Roots, mas não define o estilo.


Como explicado anteriormente, não existe um gênero musical chamado “Forró Roots”. Existe uma preferência, dentro de parte da comunidade, por determinados repertórios, gravações e estéticas musicais. Uma música, porém, não se torna “música de Roots” por estar em vinil, assim como uma gravação digital não deixa de poder ser dançada dessa maneira.



Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.




Comments


_G6A3915.jpg
blogs by topic

EXPLORE THE BLOG BY TOPIC

Interested in a specific subject? The guides below organize related articles into curated collections designed to help you explore each topic in greater depth.

​

→ New to Forró? A Curated Introduction to the Dance, Music, and Culture
Start here if you’re discovering forró for the first time and want an overview of the dance, music, community, and culture.

 

→ The Psychology of Learning to Dance
Explore beginner challenges, confidence, rhythm, social anxiety, and the learning process behind becoming a dancer.

 

→ Rhythm and Musicality in Dance
Learn about rhythm, musicality, timing, listening, coordination, and the relationship between music and movement.

 

→ Understanding Social Dancing
Explore connection, attraction, chemistry, reciprocity, etiquette, trust, and the social dynamics that make partner dancing unique.

 

→ Forró Music and Culture
Discover the musical traditions, styles, history, and cultural influences that shape the world of forró.

 

→ Forró Beyond Brazil: A Guide to the Global Forró Community
Explore how forró spread beyond Brazil through festivals, international communities, cultural exchange, and the growth of scenes around the world.

​

→ Rafael’s Essays on Dance, Community, and Human Connection

A collection of essays exploring dance beyond technique, reflecting on connection, creativity, identity, culture, relationships, and the human experiences that emerge through social dancing.

JOIN OUR NEWSLETTER

and never miss an update

  • Instagram
  • Youtube

© 2017-2026 Forró New York

Created and edited by Rafael Piccolotto de Lima.

bottom of page