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As escolas de forró estão mudando a cultura da dança - para melhor ou pior?

Updated: 6 days ago

Uma reflexão sobre como o ensino e as escolas de forró estão transformando a cultura do forró e a dinâmica dos bailes.


Uma provocação necessária


Será que as escolas de forró estão estragando a cultura do forró?


Ou, colocado de outra forma: até que ponto as escolas de forró estão mudando o forró - e quais são os impactos disso na cultura, na dança e nos bailes?


Essa pergunta provocativa não surge do nada.


Workshop de forró em Manhattan durante o Forró New York Weekend 2025, com a professora convidada Alice Rodrigues conduzindo uma aula estruturada para uma sala cheia de alunos atentos.
Workshop durante o Forró New York Weekend (Autumn Edition 2025), em Manhattan, com a participação da professora convidada Alice Rodrigues. A sala cheia e a atenção dos alunos refletem um cenário cada vez mais presente no forró: o crescimento das escolas, das aulas estruturadas e de um processo de ensino mais formalizado.

Essa provocação ecoa, de certa maneira, em mim, alguém envolvido com a educação do forró e com o desenvolvimento da cena fora do Brasil. Alguém que também ensina online e produz conteúdo sobre forró em um dos canais de maior alcance dentro desse nicho, especialmente no contexto de aulas, vídeos de danças demonstrativas e eventos de dança fora do Brasil.


Aliás, se você quiser acompanhar esse trabalho mais de perto, abaixo estão os links diretos para o canal no YouTube e para o Instagram:




Então, à primeira vista, esse questionamento e a escrita deste blog podem parecer uma colocação contraditória, vindos de um educador.


Mas essa é justamente a ideia deste post: trazer esses questionamentos a partir de alguém que trabalha com educação.


Não se trata de uma afirmação, mas de uma provocação - uma forma de dar nome a um incômodo que vem ganhando espaço e aparecendo com frequência nas mídias sociais.


Discussões sobre as dinâmicas dos bailes, sobre mudanças na maneira de dançar, sobre os grupinhos que dançam entre si, sobre a separação por níveis nas escolas e sobre quem dança com quem - e por quê.


Essas mudanças também se refletem nas diferentes formas e estilos dentro do forró. Um exemplo é um estilo relativamente mais recente, o Roots. Inclusive, tenho um blog aqui no site em que falo sobre o surgimento e as características desse jeito de dançar.



Tudo isso vem sendo colocado em questão e, no meio desse movimento, existem dois pontos que considero centrais. É sobre eles que este texto se debruça.


O desenvolvimento do forró e dois eixos principais


Estamos falando aqui do desenvolvimento da dança, da cultura ao redor dela e da forma como o forró vem sendo estruturado como um movimento cultural ao longo do tempo.


Nesse processo, existem dois eixos principais que ajudam a organizar essa conversa.


Em ambos, aparece uma tensão constante entre formalização e organicidade.


Dentro disso, vejo dois pontos centrais:


  • O primeiro é a formalização e a academização de uma dança que surgiu e se desenvolveu de maneira orgânica.

  • O segundo é a dinâmica social dos bailes e o contexto cultural de quem participa desses eventos.


  1. A formalização da dança (escolas de forró)


Uma das coisas que mais me fascinou no forró, e que, de certa maneira, me trouxe para ele, foi justamente a sua falta de formalização. Desde o início, me chamou atenção o fato de cada pessoa dançar de um jeito diferente, com liberdade criativa e possibilidade de se movimentar de várias formas, mesmo com poucos passos no repertório.


Essa ausência de rigidez fazia com que a dança não fosse um espaço de certo e errado. Era um espaço de brincadeira, de criação e de espontaneidade.


Ao mesmo tempo, essa liberdade não acontecia no vazio, mas dentro de uma linguagem compartilhada. Um ambiente em que a dança se desenvolvia de forma natural e flexível, apoiada em uma estrutura básica que dava sentido e coesão ao que acontecia.


Em contraste, outras danças mais institucionalizadas em academias frequentemente me pareceram mais rígidas e formatadas. Existe uma “barreira de entrada” maior, com regras mais definidas, posturas específicas, passos meticulosamente delimitados e movimentos pré-estabelecidos. Nesse tipo de contexto, surge uma crítica importante: muitas vezes, a prática se aproxima mais da repetição de sequências ensaiadas do que de uma improvisação real na pista.


A dança, nesses casos, pode perder parte do seu caráter de jogo e de escuta, e a criatividade acaba deslocada para um lugar mais limitado, muitas vezes restrita à escolha de sequências ou à adição de variações pontuais, em vez de estar presente na construção da dança como um todo.


É justamente nesse contraste que a organicidade do forró se destaca. Essa liberdade de construção, essa flexibilidade e essa diversidade estilística são aspectos que sempre me pareceram centrais na sua identidade.


Ao mesmo tempo, é natural que, com o desenvolvimento de qualquer dança, especialmente quando ela passa a ser ensinada de forma mais estruturada, surjam processos de padronização. Educadores, escolas e professores acabam, inevitavelmente, criando prioridades, selecionando conteúdos e organizando formas de ensino. Isso pode levar a uma certa sistematização do movimento e, em alguns casos, a um engessamento progressivo.


Grupo de instrutores e monitores ao lado da professora convidada Alice Rodrigues após um workshop de forró em Manhattan durante o Forró New York Weekend 2025.
Equipe de instrutores e monitores ao final de um workshop durante o Forró New York Weekend (Autumn Edition 2025), em Manhattan, ao lado da professora convidada Alice Rodrigues. Por trás das aulas e eventos, existe um trabalho coletivo que reflete a crescente organização e estruturação da cena do forró fora do Brasil.

Esse processo não acontece apenas do lado do ensino. Existe também uma demanda vinda de quem dança. Há um desejo constante de evolução, de aprendizado, de aquisição de novos movimentos e de desenvolvimento técnico. Em muitos casos, existe também uma busca por diferenciação: dançarinos mais experientes tendem a querer mostrar domínio, complexidade e surpresa na pista.


Nas redes sociais e nas mídias, isso se intensifica ainda mais, com um incentivo à criação de movimentos que impressionem, que sejam mais chamativos ou mais elaborados. Isso contribui para um processo de sofisticação progressiva da dança.


Diante disso, surge uma questão central: a formalização do forró através de escolas de dança ajuda ou prejudica a cultura do forró?


Até que ponto esse processo de evolução, padronização e formalização é positivo para a cultura do forró?


Até que ponto ele contribui para a experiência coletiva nos bailes e para a inclusão de novas pessoas?


E em que momento ele começa a criar barreiras que podem afastar justamente aquilo que sempre foi uma das forças da dança: sua abertura e sua acessibilidade?


  1. A dinâmica social dos bailes de forró


Quando a dança era mais simples, mais improvisada e menos formatada, o ponto de entrada era naturalmente mais baixo. Qualquer pessoa podia chegar, dançar, se divertir e participar, mesmo sem experiência, sem se sentir intimidada.


Com o aumento do nível técnico, com a incorporação de movimentos mais complexos e com o surgimento de uma certa expectativa de performance na pista, o ambiente pode começar a se tornar mais intimidador. Isso afeta especialmente quem não faz aulas, quem não treina com frequência ou quem não investiu muitas horas no aprendizado da dança.


Nesse contexto, surge uma barreira de entrada. E, junto com ela, uma possível exclusão. No longo prazo, isso pode ser prejudicial até para as próprias festas, que perdem diversidade, perdem novos participantes e acabam limitando seu próprio crescimento.


Mais uma vez, vemos os dois lados acontecendo ao mesmo tempo.


Essas dinâmicas também aparecem na forma como as pessoas criam parcerias na pista. Se você tiver curiosidade, eu fiz uma série de entrevistas (gravadas em vídeo para o canal) e também escrevi um blog sobre esse assunto:



Mas então, no fim das contas, o aumento do nível técnico melhora a dança ou torna o forró menos acessível para iniciantes?


As escolas de dança ajudam a incluir mais pessoas ou criam novas formas de separação dentro dos bailes?


As perguntas que ficam sobre o futuro do forró


Essas perguntas não têm respostas simples. Elas apontam para uma reflexão que precisa ser coletiva, construída por todos que fazem parte dessa cena.


Eu, enquanto educador e produtor da cena, tanto de eventos quanto de conteúdo, busco um caminho em que seja possível educar e dar ferramentas às pessoas, sem limitar a organicidade dessa expressão e vivência cultural tão viva e tão bonita.


Quero eu, também, poder continuar indo aos bailes sem pressão de performar, podendo brincar, e, às vezes, curtir só um passo básico dentro de um abraço gostoso.



Se você estiver começando ou refletindo sobre qual caminho seguir dentro desse universo, escrevi um outro texto explorando diferentes formas de aprendizado no forró.




Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.





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