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Forró universitário na dança: que dança é essa, afinal?

Updated: 2 days ago

Na dança, o Forró Universitário é uma forma de dançar forró que mantém elementos da base tradicional enquanto amplia seu vocabulário de movimentos, com giros, trocas de posição, deslocamentos e diferentes formas de conexão entre o casal.


Desenvolvido principalmente em contextos urbanos e hoje praticado de maneiras bastante diversas, ele pode ser entendido, em muitos casos, como uma expansão das formas de dançar associadas ao forró pé de serra.


Rafael e Carol dançando forró universitário à beira do rio em Nova York, com o skyline de Manhattan ao fundo ao pôr do sol, sorrindo enquanto se movem com leveza; o cabelo de Carol ao vento reforça a sensação de movimento, alegria e descontração.

Quando alguém pergunta o que é forró universitário na dança, a tendência é imaginar que existe um estilo bem definido, com um conjunto claro de movimentos que o descrevem.


Mas, para entender melhor como isso se manifesta na prática, é útil olhar para de onde essa dança vem e o que foi sendo incorporado ao longo do tempo.


O forró universitário mantém uma forte continuidade com formas de dançar associadas ao forró pé de serra, incluindo estruturas mais simples como o “dois pra cá, dois pra lá”, com uma base rítmica e corporal bastante direta.


Essa base não desaparece. Ela continua sendo uma referência importante. Ao longo do tempo, diferentes comunidades e abordagens passam a ampliar esse repertório e a reorganizar algumas dessas estruturas, incorporando outras possibilidades de movimento.


O deslocamento lateral do “dois pra cá, dois pra lá”, por exemplo, tende a ser reduzido em muitas abordagens, enquanto outras bases começam a aparecer, como variações com marcação para frente e para trás, que, em alguns casos, lembram a lógica de outras danças de salão, como a salsa, mas com uma execução e uma qualidade de movimento próprias do forró.


A partir dessa ampliação, a dança passa a se organizar de formas mais variadas, abrindo espaço para diferentes dinâmicas e caminhos de movimento, sem perder sua referência original.


Em um estúdio de dança, Rafael conduz um workshop de forró universitário para alunos avançados no festival Baião Vai 2025, em Lisboa, demonstrando movimentos ao lado de uma professora local que o auxilia; ao fundo, diversos alunos observam atentos e sorrindo, em um momento focado em criatividade, conexão e musicalidade dentro do abraço.
Workshop no Baião Vai 2025 (Lisboa), explorando como a base do forró se expande em criatividade, musicalidade e conexão dentro do abraço.

Ao longo dos anos ensinando e observando diferentes contextos de forró, esse processo de transformação aparece de forma bastante consistente.


Esse desenvolvimento está, em grande parte, ligado à dinâmica urbana e à entrada do forró nas escolas de dança. Aos poucos, o que era mais simples se expande em repertório, sem perder a sua base.


Se você quiser entender melhor como esse processo aconteceu em um contexto mais amplo - envolvendo também a música e o ambiente social - existe um outro artigo que aprofunda esse tema:



A base do forró universitário: simplicidade que se expande


Mesmo com todas as transformações, o forró universitário mantém uma base relativamente simples. A lógica das três pisadas com pausa continua sendo, em muitos contextos, um elemento estruturante importante, alinhando o movimento dos dançarinos à base rítmica da zabumba. É isso que ancora a dança e mantém a conexão com o forró tradicional.


A partir dessa base, a dança deixa de ser apenas repetição e passa a funcionar como estrutura para construção.


Em algumas abordagens, essa expansão vai ainda mais longe, com sequências que quebram a lógica da base tradicional, incorporando padrões com cinco, sete ou mais pisadas. Isso não substitui a base, mas amplia o vocabulário.


Giros, trocas e circularidade no forró universitário


Uma das características frequentemente associadas ao forró universitário é a incorporação de giros, principalmente em posições mais abertas, o que transforma a dinâmica da dança.


No vídeo abaixo, essas características aparecem de forma clara na prática. Observe o uso de giros combinados com momentos em posição mais fechada, a fluidez da linguagem corporal e a sensação de circularidade na dança.



A demonstração aconteceu ao final de um workshop para iniciantes na Filadélfia, no dia de Halloween, durante uma pequena tour pelos Estados Unidos ao lado da professora convidada Alice Rodrigues.


O vídeo registra esse momento - uma dança conectada, fluida e confortável, incorporando deslocamentos e ciclos de giros.


É justamente esse tipo de organização, baseada em giros, trocas e fluxo contínuo, que, em muitos contextos, passa a estruturar uma parte importante da identidade do forró universitário na dança.


Corporalidade no forró universitário: leveza, fluidez e elevação


Existe um elemento que ajuda a identificar uma tendência importante dentro do forró universitário: a corporalidade.


Uma característica visual frequente do Forró Universitário aparece no uso dos braços. Como muitos giros e trocas de posição acontecem em posição aberta, os braços participam ativamente da condução e podem acompanhar e desenhar esses movimentos no espaço.


A corporalidade, por outro lado, varia bastante. Em algumas vertentes, a dança apresenta maior fluidez nos deslocamentos, um corpo mais solto e uma sensação de elevação. Em outras, o movimento pode ser mais marcado, contido e próximo do chão.


Em algumas vertentes do Forró Universitário, a pessoa que está sendo conduzida muitas vezes dança com o corpo mais elevado, frequentemente na ponta dos pés, o que cria uma qualidade de movimento mais leve e elástica.


Mas é importante entender que isso não é uma característica universal.


Dentro do próprio forró universitário, sempre existiram diferentes formas de trabalhar o corpo. O que se observa, na prática, é uma tendência - não uma regra.


Ao longo dos anos dançando e ensinando em diferentes contextos, essa variação se torna muito clara. Em festivais, especialmente fora do Brasil, onde diferentes professores e vertentes se encontram, é possível perceber como essas qualidades aparecem com intensidades bastante diferentes.


Há vertentes em que a leveza de braços é muito acentuada, com quase ausência de contrapeso e uma sensação de movimento mais solto. Em outros, o uso de contrapeso é mais presente, criando uma dinâmica diferente na condução.


Da mesma forma, algumas abordagens trabalham com um corpo mais alongado e elevado, enquanto outras mantêm uma relação mais próxima com o chão, com menos elevação e mais estabilidade.


Todas essas formas coexistem dentro do que se chama de forró universitário.


Essa diversidade não enfraquece o estilo. Pelo contrário, reforça a ideia de que ele não é uma forma única de dançar, mas um campo aberto, onde diferentes corporalidades se desenvolvem a partir de uma mesma base.


Para observar como essas diferentes qualidades de movimento aparecem na prática, o vídeo abaixo traz uma demonstração realizada durante um workshop de conexão e criatividade na dança em Nova Iorque, ao lado da professora convidada Milena Morais, antes da pandemia.


Trata-se de um contexto de aula para um grupo pequeno, o que permite uma dança mais focada na escuta, na interação e na exploração dos elementos trabalhados naquele momento.



Ao assistir, é possível perceber como muitas dessas características se articulam de forma integrada.


A alternância entre momentos em casal fechado, com um abraço confortável e entregue, e posições mais abertas, com uso do espaço e deslocamentos, acontece de forma fluida e contínua ao longo da dança.


A corporalidade tende a se manter leve, com uma sensação de elevação e elasticidade, abrindo espaço para momentos de criatividade e diálogo entre eu e ela.


Mais do que ilustrar uma única forma de dançar, o vídeo evidencia justamente essa abertura - uma possibilidade entre várias dentro do universo do forró universitário.


Forró universitário e outras vertentes do forró: o que muda na prática


Comparar o forró universitário com outras vertentes do forró ajuda a entender melhor suas características.


No forró eletrônico, a dança tende a ter menos deslocamento pelo espaço e menos trocas de lugar entre o casal. O foco está nas marcações corporais, especialmente no quadril, com acentos mais definidos e movimentos mais rápidos e localizados, o que gera uma sensação de energia mais concentrada.


Já no Forró Roots, a dança tende a se organizar com maior ênfase na posição fechada, nas caminhadas, no jogo de pernas e em uma corporalidade frequentemente mais conectada ao chão. Algumas dessas dinâmicas podem lembrar elementos encontrados em danças como o Samba de Gafieira ou o Tango, sem que isso necessariamente indique uma descendência ou influência direta.


Isso não significa, no entanto, que o Roots se limite ao casal fechado. Também existem momentos em posição aberta, deslocamentos e diferentes tipos de giros. A diferença está mais na frequência, na função e na maneira como esses elementos são organizados dentro da dança.


Da mesma forma, o Forró Universitário não deve ser entendido simplesmente como uma dança em posição aberta. Uma parte importante de sua linguagem está justamente na alternância entre posições abertas e fechadas.


Por isso, reduzir a diferença entre Universitário e Roots à ideia de que um seria dançado “aberto” e o outro “fechado” é uma simplificação. Os dois podem utilizar proximidade, abraço, giros e deslocamentos. O que muda é a frequência, a função e a maneira como esses elementos são organizados dentro de cada abordagem.


É comum encontrar danças coladas, com base simples, marcadas por conforto, fluidez e qualidade no abraço. Esse “chamego” faz parte da experiência tanto quanto os giros.


A diferença está em como o casal fechado é usado dentro de cada vertente. No forró roots, o abraço próximo costuma servir como base para caminhadas, travas, giros junto, sacadas de perna e variações de pisadas. No forró eletrônico, ele se conecta mais com o balanço e o jogo de quadril. Já no forró universitário, muitas vezes, o casal fechado se torna o espaço do aconchego, da pausa e da qualidade da conexão.


Conclusão: uma expansão da base, não uma ruptura


O forró universitário na dança não representa uma ruptura completa, mas uma continuidade em transformação. Ele mantém a base do forró tradicional enquanto amplia suas possibilidades de organização, incorporando novas influências e formas de movimento.


Inclusive, em uma conversa que gravei para o canal do Forró New York no YouTube com o professor Vitinho Maia, de Brasília, uma das referências na educação da dança do forró hoje, surgiu uma leitura que ajuda a organizar bem essa ideia. Na visão dele, o que chamamos de forró universitário na dança pode ser entendido como uma atualização do forró pé de serra.


Talvez seja justamente essa continuidade - mais do que uma ruptura - que ajude a entender por que o forró universitário é, ao mesmo tempo, tão reconhecível e tão aberto a diferentes interpretações.


No vídeo abaixo, exploramos essa ideia com mais profundidade, discutindo as diferentes vertentes do forró, tanto na música quanto na dança.




FAQ: dúvidas comuns sobre o forró universitário na dança


O forró universitário é um estilo específico de dança?


Não exatamente. O forró universitário não é um estilo fechado com regras fixas, mas uma forma de dançar que se desenvolve dentro de um movimento cultural mais amplo, ligado à expansão do forró em contextos urbanos.


Nesse processo, a dança passa a incorporar e desenvolver novas possibilidades de movimento e organização do corpo, especialmente no uso de giros e deslocamentos. Algumas dessas características também aparecem em outras danças sociais, mas dentro do forró assumem formas próprias.


Quais são as principais características da dança do Forró Universitário?


O Forró Universitário mantém a base rítmica do forró tradicional, mas amplia seu vocabulário de movimentos. Entre suas características mais comuns estão os giros e trocas de posição, a alternância entre posições abertas e fechadas e uma grande variedade de combinações entre esses elementos.


A presença frequente de giros em posição aberta também faz com que os braços tenham um papel mais ativo e visível, acompanhando a condução e desenhando os movimentos no espaço. A corporalidade varia bastante entre diferentes escolas e dançarinos: algumas abordagens são mais leves, fluidas e soltas, enquanto outras apresentam movimentos mais marcados e contidos.


Essas características são tendências, não regras. Diferentes escolas, professores e comunidades desenvolveram maneiras distintas de dançar o Forró Universitário.


Qual a diferença entre Forró Universitário e Forró Roots?


A principal diferença está na maneira como cada abordagem organiza seu vocabulário de movimentos. O Forró Universitário costuma apresentar maior variedade de giros e combinações em posição aberta, enquanto o Roots tende a dar mais espaço a caminhadas, jogo de pernas, variações de pisadas e movimentos desenvolvidos em posição fechada.


Essa diferença também aparece no uso dos braços. No Universitário, os giros em posição aberta fazem com que os braços frequentemente acompanhem e desenhem os movimentos, abrindo ou subindo durante diferentes combinações. No Roots, os braços tendem a permanecer mais próximos do corpo e mais contidos, embora continuem tendo funções importantes na conexão, na condução, nos contrapesos e também nos giros.


Isso não significa que o Universitário seja uma dança “aberta” e o Roots uma dança “fechada”. Os dois utilizam abraço, giros, deslocamentos e diferentes graus de proximidade. O que muda é a frequência, a função e a maneira como esses elementos são organizados dentro de cada abordagem.


O Forró Roots é frequentemente associado a um desdobramento que se desenvolve, em muitos contextos, dentro do universo do Forró Universitário. Em um primeiro momento, pessoas que já dançavam Universitário começam a incorporar outros elementos e a reorganizar sua linguagem corporal, contribuindo para o desenvolvimento de novas formas de dançar.


Com o tempo, essas abordagens vão se consolidando e se diferenciando, até que o Roots passa a apresentar uma identidade própria. Hoje, Universitário e Roots podem ter linguagens bastante distintas, embora compartilhem referências e uma história de desenvolvimento que se cruza em diferentes momentos e contextos.


Não se trata de um estilo mais simples ou mais complexo, mas de diferenças de ênfase, vocabulário e organização do movimento.


Se você quiser ver como essas características aparecem na prática, com exemplos e uma análise mais detalhada, existe um artigo específico dedicado a esse tema:



Qual a diferença entre forró pé de serra e forró universitário na dança?


O forró universitário mantém uma forte continuidade com formas de dançar associadas ao forró pé de serra, mas amplia seu vocabulário de movimentos, incorporando maior variedade de giros, trocas de posição, deslocamentos e formas de conexão.


Na prática, essa fronteira nem sempre é clara. Muitas pessoas usam “pé de serra” para se referir também ao que hoje se dança como forró universitário, entendendo essa forma como uma continuidade ou atualização do estilo.


Isso revela uma questão importante: o termo “forró universitário” faz mais sentido como descrição de um movimento cultural e musical do que como um estilo de dança rigidamente definido. A forma de dançar pode existir independentemente do repertório musical, o que mostra que essas classificações são, em parte, simplificações de um processo mais complexo.


No forró universitário, dança-se sempre em posição aberta?


Não. Apesar da presença frequente de giros e deslocamentos em posição aberta, uma parte importante do Forró Universitário também acontece em posição fechada, com o casal dançando junto e abraçado.


Na posição aberta, existe espaço entre os corpos dos parceiros, que podem manter a conexão pelas mãos ou, em alguns momentos, até mesmo se soltar. A alternância entre posições abertas e fechadas é comum no Forró Universitário.


É preciso saber muitos passos para dançar forró universitário?


Não. A base da dança continua sendo simples. O que muda é a forma como essa base pode ser expandida ao longo do tempo, permitindo que o repertório cresça de maneira gradual.


O Forró Universitário tem uma técnica única?


Não. Diferentes escolas, professores e comunidades desenvolveram maneiras distintas de organizar postura, conexão, giros, contrapeso e movimentação.


Existem tendências compartilhadas, mas não um único sistema técnico que defina todo o Forró Universitário. Essa diversidade ajuda a explicar por que dançarinos identificados com o mesmo estilo podem apresentar corporalidades, repertórios e formas de conexão bastante diferentes.




Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.




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