Base, Base, Base: Por Que os Fundamentos do Forró Importam Mais do Que os Passos
- Rafael Piccolotto de Lima

- Aug 2, 2018
- 4 min read
Este não é um texto sobre o passo básico do forró.
É uma reflexão sobre algo que continua me chamando atenção depois de muitos anos dançando e ensinando: a importância dos fundamentos.
Ritmo, abraço, equilíbrio, conexão e adaptação ao parceiro são elementos que costumam receber bastante atenção no início da jornada de um dançarino. Curiosamente, são também os elementos que continuam determinando a qualidade da dança muito tempo depois.

Quanto tempo leva para sentir uma dança?
Quanto tempo você demora para saber se uma dança vai ser boa ou não?
Parece mentira, mas em poucos segundos, antes mesmo de fazer qualquer giro, eu já consigo sentir características marcantes de uma nova parceira de dança.
Qual o segredo para entender tão rapidamente essa linguagem corporal?
Prestar atenção aos fundamentos: a base, o ritmo, o abraço e, sobretudo, a capacidade de ajustar a maneira de dançar de acordo com as características do parceiro. Em poucos movimentos, poucas pisadas, esses elementos ficam evidentes na dança de qualquer pessoa.

Por que os fundamentos importam mais do que os passos
É interessante perceber que justamente essa parte tão importante da dança é aquela que muitos iniciantes e até alguns dançarinos mais experientes acreditam não precisar mais desenvolver.
Quando olho para minha dança de mais de uma década atrás, ainda lembro da ansiedade de aprender cada vez mais movimentos. Eu queria mostrar para minhas parceiras que também sabia fazer aqueles floreios elaborados que via outros forrozeiros executando.
Na minha cabeça existia a ilusão de que, quanto mais passos eu tivesse no repertório, mais interessante seria a dança.
Com o tempo percebi que a realidade era outra.
Pouco importa quantos ou quais passos um dançarino conhece se a base não é boa. Se o abraço é desconfortável, se os movimentos não estão sincronizados com a música, se a atenção está voltada apenas para os próprios movimentos em vez da interação com o parceiro, a experiência inevitavelmente fica limitada.
Por isso volto a repetir nas minhas aulas:
“Não importa quais passos você faz. O importante é como você os faz.”
Pode parecer uma observação simples, mas ela faz uma enorme diferença.
Se você está começando sua jornada no forró e tentando entender onde vale a pena investir sua energia, talvez também goste de ler:
→ Como aprender forró? 4 caminhos possíveis - e qual funciona melhor para você
Grande parte dessa qualidade da dança também passa pela forma como nos relacionamos com a música. O ritmo costuma ser uma das primeiras coisas que percebemos em uma dança, mas a musicalidade continua se desenvolvendo por muitos anos.
→ Musicalidade no forró: os 5 níveis de desenvolvimento na dança
Refinando a base na prática

Ao longo dos anos, o crescimento da comunidade do Forró New York permitiu a criação de diferentes níveis de aula, workshops, cursos online e eventos.
Apesar dessa diversidade, uma coisa continua igual: uma parte importante do trabalho acontece refinando os fundamentos.
É divertido explorar movimentos mais complexos e desafiadores. Eu gosto disso tanto quanto qualquer outro dançarino.
Mas, se você vier a uma das minhas aulas, esteja preparado também para passar bastante tempo trabalhando elementos básicos.
São eles que fazem a diferença.
São eles que permitem que movimentos mais avançados funcionem de forma confortável, musical e natural.
O que faz um forró ser gostoso de dançar?
Forró bom - na minha opinião - é forró que flui.
É aquela dança que parece um abraço confortável sem fim, acompanhando naturalmente o balanço da música.
É aquela dança que termina deixando um gostinho de quero mais.
Pense nisso: é bastante provável que os primeiros movimentos com uma nova parceira, antes mesmo de você mostrar qualquer repertório de floreios, já sejam suficientes para que ela saiba se gostaria de dançar outra música com você.
Se você sente que sua dança ainda não flui como gostaria, muitas vezes o caminho passa menos por aprender novos movimentos e mais por desenvolver uma relação mais sólida com o ritmo.
→ 10 dicas para melhorar seu ritmo na pista de dança de forró
A história da minha janela
Como epílogo deste texto, compartilho uma lembrança da minha fase de aprendiz.
Uma lembrança que talvez pudesse me causar algum constrangimento, mas que hoje me dá orgulho de contar.
Durante meu primeiro ano como forrozeiro, numa época em que eu frequentava aulas e festas quase diariamente em Campinas, eu fazia muito mais do que simplesmente comparecer aos eventos.
Chegava em casa tarde da noite, colocava meus fones de ouvido, ia para a cozinha - que tinha uma grande janela que funcionava como espelho - e passava horas praticando fundamentos e dançando com uma parceira imaginária.
Era minha forma de garantir que, quando estivesse dançando com uma parceira de verdade, minha atenção pudesse estar voltada para ela, e não para meus próprios pés.
Talvez meus vizinhos me achassem completamente maluco por dançar sozinho em frente à janela do sexto andar.
Mas funcionou.
Como resultado, construí uma base que, em pouco mais de meio ano, me permitiu passar de um forrozeiro tímido, que dançava poucas músicas por noite, para alguém bastante procurado na pista e, posteriormente, integrante do grupo de dança da Cooperativa Brasil, que durante muitos anos foi uma das mais importantes casas de forró do país.
Anos depois, durante a pandemia, voltei a me conectar com esse mesmo tipo de prática individual.
Passei bastante tempo estudando sozinho e desenvolvi uma série de sessões guiadas de treino focadas em ritmo, coordenação, variações e fundamentos.
Em muitos aspectos, era exatamente a mesma ideia daqueles treinos noturnos na cozinha: dedicar tempo suficiente aos fundamentos para que eles deixassem de exigir esforço consciente e passassem a fazer parte do corpo.
Se você chegou recentemente ao universo do forró e ainda está explorando a dança, a música e a cultura ao redor dela, talvez também goste de ler:
→ Novo no Forró? Uma Introdução Curada à Dança, Música e Cultura
E aí, quem quer vir praticar um pouco de base comigo?
Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.






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