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Forró Sem Palavras: Como o Forró Me Levou a Criar um Projeto Musical

Updated: May 31

Você já ouviu forró tocado por um quarteto de cordas?


E por uma orquestra?


Ou por um grupo de jazz?


Eu gostaria de convidar você a conhecer o Forró Sem Palavras.



O Forró Sem Palavras é um projeto musical que criei em Nova York em 2018. Em sua essência, o projeto nasceu do encontro entre dois universos que me acompanham há grande parte da vida: minha relação com o forró como dançarino e participante da comunidade forrozeira, e minha atuação profissional como compositor, arranjador, maestro e educador.


Com o tempo, aquilo que inicialmente pareciam caminhos paralelos passou a fazer parte de uma mesma conversa artística.


Duas Partes da Minha Vida Que Sempre Existiram Juntas


Há mais de vinte anos o forró faz parte da minha vida.


Não apenas a música, mas a dança, as comunidades, os festivais, as amizades e as inúmeras experiências que surgem ao redor da pista de dança.


Ao mesmo tempo, construí minha trajetória profissional trabalhando com composição, arranjo, direção musical, regência, gravações e projetos com grandes grupos instrumentais.


Durante muitos anos essas duas dimensões da minha vida se desenvolveram lado a lado.


Havia a parte ligada a ensaios, partituras, orquestras e projetos artísticos.


E havia a parte ligada aos bailes, aos encontros sociais e à cultura construída em torno do forró.


Muitas pessoas me perguntavam como esses dois universos se conectavam. A verdade é que eu nunca os vivi como coisas completamente separadas. Eles aconteciam em espaços diferentes, envolviam atividades diferentes e reuniam comunidades diferentes, mas eram expressões de interesses que sempre coexistiram de forma muito natural na minha vida.


Olhando para trás, o Forró Sem Palavras parece menos uma ideia repentina e mais o resultado de uma pergunta que me acompanhou durante muitos anos.


Uma Pergunta Que Escuto Com Frequência


Recentemente, durante uma conversa com a professora de dança Alice Rodrigues, ela me fez uma pergunta que muitas pessoas já haviam feito ao longo dos anos.


Qual é a relação entre o forró e a música orquestral?



A pergunta não era nova, mas respondê-la em voz alta me ajudou a organizar reflexões que já vinham amadurecendo há bastante tempo.


Parte da resposta passa pelo fato de que ambas são experiências artísticas, ainda que geralmente aconteçam em ambientes muito diferentes. Quando pensamos em uma sala de concerto, normalmente imaginamos uma plateia sentada, ouvindo atentamente. Quando pensamos em um baile de forró, imaginamos pessoas dançando, interagindo e participando de forma muito mais direta da experiência.


Os contextos são diferentes, mas ambos giram em torno de experiências compartilhadas construídas através da música.


Essa observação acaba se conectando a outra ideia que me fascina há muitos anos.


Corpo, Som e Movimento


Parte do meu trabalho como maestro envolve comunicar ideias musicais através do movimento. Os músicos observam gestos, intenções, tempo e expressão corporal, transformando esses elementos em som.


A dança se aproxima dessa mesma relação pelo caminho inverso. A música já existe e o movimento surge como resposta ao que está sendo ouvido.


Há muitos anos me interessa a ideia de que essas duas experiências envolvem os mesmos elementos - corpo, som, movimento, ritmo e expressão -, mas organizados de maneiras diferentes.


Durante a conversa com Alice, acabei resumindo essa relação através de uma observação que me acompanha há bastante tempo. Na música, o corpo frequentemente funciona como fonte geradora do som. Na dança, o som se torna uma das forças que geram movimento.


Não vejo essas experiências como opostas. Para mim, elas são perspectivas diferentes sobre uma mesma relação entre som, movimento e expressão humana.


Muitas das perguntas que mais tarde dariam origem ao Forró Sem Palavras surgiram justamente dessa convivência constante entre esses dois universos.


Criando um Espaço Onde Esses Mundos Pudessem se Encontrar


Em determinado momento, parei de pensar nessas conexões apenas como ideias e comecei a me perguntar o que aconteceria se elas fossem exploradas através de um projeto artístico concreto.


Essa curiosidade acabou se transformando no Forró Sem Palavras.


A ideia era relativamente simples.


Levar o forró para ambientes musicais onde ele normalmente não aparece, como grupos de câmara, orquestras e formações instrumentais.


Ao mesmo tempo, trazer parte desse universo instrumental para espaços onde as pessoas se encontram para dançar, conviver e experimentar o forró como cultura viva.


O próprio nome do projeto reflete uma das dimensões do forró que sempre me chamou atenção.


Embora muitas pessoas se relacionem com o forró principalmente através das canções e dos cantores, existe uma rica tradição de música instrumental atravessando toda a sua história. Músicos como Sivuca, Dominguinhos, Hermeto Pascoal e tantos outros demonstraram como a força rítmica, melódica e emocional do forró pode existir independentemente da presença da voz.


Parte da motivação do projeto nasceu justamente da vontade de explorar esse universo. Em muitos arranjos e apresentações do Forró Sem Palavras, são os instrumentos que ocupam o centro da narrativa musical, permitindo que melodias, ritmos, improvisações e diferentes formações instrumentais conduzam a experiência.


Nesse sentido, o nome não sugere uma ausência, mas uma mudança de perspectiva. É um convite para olhar para uma dimensão do forró que sempre existiu, mas que muitas vezes permanece em segundo plano.


Afinal, o próprio termo “forró” pode significar coisas bastante diferentes dependendo do contexto musical. Pé de serra, forró universitário, produções contemporâneas, abordagens instrumentais, projetos sinfônicos e muitas outras vertentes fazem parte de um ecossistema musical muito mais amplo do que normalmente imaginamos.



De Nova York Para Diferentes Cidades


O que começou em Nova York acabou se expandindo para diferentes formatos e colaborações.


Ao longo dos anos, o projeto reuniu perto de duzentos músicos e passou por cidades como Nova York, Montreal, Toronto, São Paulo, Campinas e Rio Claro.


Cada versão reflete os músicos envolvidos, o espaço, o público e a comunidade artística que ajuda a tornar aquela apresentação possível.


Algumas apresentações acontecem em teatros e salas de concerto. Outras acontecem em espaços onde as pessoas são convidadas a dançar. Em alguns contextos o público participa principalmente através da escuta. Em outros, através do movimento e da interação social.


O formato muda de acordo com a situação, mas a pergunta que impulsiona o projeto continua muito parecida: que novas possibilidades surgem quando diferentes espaços musicais e culturais são convidados a dialogar?



Um Projeto Flexível Enraizado no Forró


Com o passar dos anos, ficou claro para mim que o Forró Sem Palavras não é exatamente um grupo fixo.


Diferentes apresentações envolveram quartetos de cordas, grupos de câmara, músicos de jazz, grandes formações instrumentais e orquestras sinfônicas. A instrumentação muda de acordo com os músicos disponíveis, o contexto e os objetivos artísticos de cada colaboração.


O que permanece constante é a relação do projeto com o forró. Não apenas com seus ritmos e repertórios, mas também com a cultura que existe ao seu redor. A dança, a experiência coletiva, o encontro entre pessoas e o senso de participação tão característico das comunidades de forró continuam influenciando profundamente a forma como penso esse trabalho.


Por isso, nunca enxerguei o Forró Sem Palavras como um afastamento do forró. Se existe alguma definição que me parece adequada, é a de que ele representa um dos muitos caminhos que surgiram a partir de tantos anos vivendo dentro desse universo.


Conheça o Projeto


Se você quiser ouvir mais gravações, apresentações e colaborações, convido você a explorar a playlist do projeto no YouTube.


Também é possível conhecer mais sobre a história do projeto, suas apresentações e seu desenvolvimento artístico através do meu site.





Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é o Fundador e Diretor Educacional do Forró New York, além de compositor, arranjador e diretor musical indicado ao Latin Grammy.




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